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Escravidão doméstica e laços da intimidade: mulheres escravas, aleitamento e maternidade no Brasil oitocentista

Processo: 14/09291-0
Linha de fomento:Bolsas no Brasil - Doutorado
Vigência (Início): 01 de julho de 2014
Vigência (Término): 30 de abril de 2018
Área do conhecimento:Ciências Humanas - História - História do Brasil
Convênio/Acordo: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
Pesquisador responsável:Maria Helena Pereira Toledo Machado
Beneficiário:
Instituição-sede: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
Assunto(s):Escravidão   Aleitamento materno

Resumo

Através da pesquisa de ampla gama de documentos, pretendemos investigar as experiências e tensões sociais experimentadas por escravas domésticas amas de leite no Brasil oitocentista: forma de escravização que recaía exclusivamente sobre as mulheres no ambiente doméstico, o aleitamento obrigatório implicava, sob a perspectiva das escravas, na apropriação de seus corpos como nutrizes e nas experiências da maternidade sob a escravidão. O período situado entre 1830 e 1888 encerrou um amplo processo de mudanças no tocante às relações escravistas, marcadas, ao longo do século, pela emergência dos discursos médicos sanitaristas na década de 1830, pelo fim do tráfico intercontinental, pela política emancipacionista e o amplo processo de libertações, que provocaram o lento declínio da posse de escravos domésticos a partir de 1850. Relativas ao último século da vigência da escravidão no Brasil, entre 1830 e 1888, as fontes sobre as quais nos debruçaremos refletem os conflitos que permearam as relações escravistas no interior das famílias proprietárias no período de desagregação do regime, que cobre a emergência dos discursos médicos sanitaristas acerca da amamentação e da puericultura até a Lei Áurea, nas províncias de São Paulo e de Pernambuco, centrando-se, sobretudo, nas do Rio de Janeiro e da Bahia, cujas capitais sediaram as duas primeiras faculdades de medicina brasileiras de onde emergiu ampla literatura médica acerca do aleitamento, conjunto central de fontes da pesquisa. Partindo da análise de documentação ampla e diversa - teses acadêmicas e artigos médicos, manuais de medicina popular, fontes das Santas Casas de Misericórdia, anúncios de jornais, romances, literatura de memórias e de viagens, além de processos criminais e cíveis envolvendo amas de leite no período - propomos investigar as práticas sociais relativas à amamentação e aos cuidados prestados às crianças livres e escravas, além das experiências e tensões experimentadas por escravas domésticas que, servindo diretamente a seus donos ou alugadas a terceiros, nas fazendas e nos sobrados urbanos, desempenharam a ocupação de ama de leite. Pretendemos recuperar as práticas sociais a respeito da amamentação, da parturição e do cuidado de crianças livres e cativas, atentando para as tensões decorrentes da penetração dos discursos médicos modernizadores no ambiente doméstico escravista no processo de desagregação da escravidão urbana e doméstica, avaliando-se, neste processo, os papéis desempenhados pelas amas, objeto de destaque nas teses da medicina oitocentista que versaram sobre o aleitamento materno e a higiene infantil. Pretendemos ir além da descrição do mercado de trabalho e das representações médicas de cunho sanitarista sobre as amas de leite expressas nas teses de medicina: enfocando sobretudo a apropriação do corpo da cativa como nutriz, visamos atingir aspectos da vivência escrava no mundo doméstico como gravidez, parto, aleitamento e infância da criança cativa e senhorial, no interior de um intrincado de relações perpassadas pela proximidade física, pelo paternalismo senhorial, pela violência, pela intimidade e por restrições à capacidade materna da própria escrava. O atual projeto dá prosseguimento ao estudo de um tema que, objeto de parcos estudos sobre outras regiões e contextos afora o da cidade do Rio de Janeiro dos oitocentos, carece de investigações mais aprofundadas. (AU)

Matéria(s) publicada(s) na Agência FAPESP sobre a bolsa:
A herança escravista no trabalho doméstico