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Publicado em: Correio Popular (Opinião) em 16 de Setembro de 2005

O silêncio palavroso de Marilena Chaui

Por Roberto Romano

Continuo a história da moça que iria "provar" o socialismo fatal da Igreja Católica. Seu projeto, disse, era digno de Weber e de Marx. Após o sorriso satisfeito da moça, terminei: "Digna de Weber pouco antes de ser internado e de Marx quando os furúnculos lhe doíam na British Library". Como ela conseguiria demonstrar a passagem de um campo ao outro da vida social? Marx mesmo desistira do sipoal em questão. Entreguei à moça uma lista de livros a serem lidos, se ela quisesse falar algo sobre o tema, algo em torno de 100 títulos. Ela recebeu uma informação sobre "o" documento do Vaticano 2. O Concilio produziu milhares de páginas. A resposta da candidata foi honesta e singela, nos padrões da esquerda misóloga e militantes: "Não lerei tais livros e documentos, porque eles podem modificar o resultado da minha pesquisa!" A sua possível orientadora desistiu de ambas, tese e orientanda.
A narrativa acima ilustra o ambiente da esquerda católica da época, com os seus parasitas de sempre. O saber estava dado nos lambões de marxismo e a pesquisa era roupagem para "expropriar" a Fapesp e demais instituições burguesas. No mesmo plano superficial da "pesquisadora" andavam importantes líderes da Teologia da Libertação, como Clodovis Boff, irmão de outro Boff mais famoso. Na resenha que escreveu para o meu livro (Brasil, Igreja contra Estado) e tentando ridicularizar minhas advertências sobre o conúbio entre socialismo e catolicidade, ele brindou a cultura política com lindas pérolas, referindo-se à "inegável tendência da Igreja na direção do projeto socialista". Burrice satisfeita e grosseria definiam os "projetos" da estudante uspiana e de Boff. Termina o autor a sua resenha de maneira gentil : "Este discurso altivo e coquete dá mostras de estar completamente por fora da questão real. Ele não se engata na caminhada dos oprimidos. A quem poderá interessar?" (A Igreja da Esperança, Leia Livros, Agosto de 1980). A "ciência marxista" rezava que a Igreja se tornaria irresistivelmente socialista. Quem não "engatasse" naquele trem perderia a história.
Volto à mestra Chaui. Se a Igreja era candidata certa ao socialismo, nada mais "natural" que João Paulo 2 assumisse semelhante "projeto". Afinada com todos os setores que lhe acarretam dividendos, a professora jogou Spinoza às urtigas, escondeu as críticas à dominação teológico-política e pregou as maravilhas do Bom Pastor. A Folha de São Paulo (Folhetim) organiza um encontro para discutir a visita papal ao Brasil. Foram convidados religiosos e até aquela data a muito atéia professora. Recebi um convite, pois imaginaram-me fervoroso adepto do novo papa. Engano fatal. Os religiosos cantaram João de Deus em prosa e verso. Chaui armou um aranzel para dizer que ele libertarias as massas oprimidas pelo capital. Alertei os presentes e a esquerda: o sumo pontífice era contrário ao socialismo e desmantelaria as teologias da "libertação". Matéria publicada, a censura mostrou-se com evidência, pois foram editadas frases minhas sem as bases críticas que avancei. Já a arenga "socialista, cristã e libertária" da professora foi publicada na íntegra. Seguiu-se a luta entre João Paulo 2, a URSS, e quejandos. As primeiras vítimas, merecidamente, foram os "teólogos" que preferiram insultar em vez de refletir no real alcance do delírio de uma catolicidade "socialista". Com a repressão do Vaticano, a professora calou o bico sobre o libertarismo religioso e, rápido, retornou a Spinoza.
Certo dia, ao ler o jornal, vejo um texto de José Guilherme Merquior acusando um plágio da professora. Movido pela piedade e diante dos lamentos dramáticos por ela encenados, tentei defendê-la. Como não pertencia ao PT, sugeri que os "companheiros" deveriam vir a público. Todos, menos um, declaravam-se "indignados" com Merquior. Logo, afirmavam, escreveriam algo contra ele. Nada aparecia. Vários dentre eles mantinham colunas em revistas do País. O "menos um" indicado, importantíssimo no Panteão da esquerda, disse clara e distintamente : "Ela colou". Com o silêncio dos intelectuais petistas, em companhia de uma docente da USP escrevi na Folha em defesa de Chaui. Levei merecidas pauladas de Merquior. Numa polêmica é preciso sair ou solicitar desculpas pelo começo. Marilena Chaui exigia que não respondêssemos ao crítico enquanto o objeto do plágio, Claude Lefort, não o desmentisse. Depois de muita espera escrevemos comunicando que não diríamos mais nada sobre o caso. A acusada se lixou para o que ocorreu conosco, uma vez "absolvida" por Lefort. Na época um universitário ligado ao petismo saiu-se com esta: "Marilena é intelectual e militante. Não possui o tempo necessário para leituras. Ela pode agir assim, pela causa". Adeus às aspas…

Roberto Romano é filósofo e escreve às terças-feiras.