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Publicado em: Veja São Paulo (Demografia ) em 29 de Setembro de 2010

Procuram-se estrangeiros

Por Marcelo Sakate

Há pouco mais de um século, atraída por incentivos do governo e descrente nas perspectivas em seu país,uma onda de imigrantes desembarcou no Brasil. Esses trabalhadores europeus, sobretudo portugueses e italianos, contribuíram para suprir uma carência de mão de obra nas lavouras de café, após o fim da escravatura e o avanço dessa cultura. A imigração chegou a representar 10% do crescimento populacional nas primeiras décadas do século XX. Ela acirrou tanto a disputa por emprego que, em 1934, o governo estabeleceu cotas para limitar sua entrada. Agora, novamente, o país volta a ser um polo de atração. A transformação no mapa global da produção industrial e o crescimento da economia brasileira nos últimos anos ensaiam reverter o encolhimento demográfico dos estrangeiros: eles totalizavam 682000 pessoas em 2009, ou só 0.36% da população que vive no país. No início do século XX, cinco em cada 100 habitantes brasileiros eram nascidos em outros países.

O desempenho positivo do país durante a pior crise econômica desde a Grande Depressão ajudou a amenizar o estigma de mercado em desenvolvimento. Além disso, os salários no Brasil já são, em muitos casos, compatíveis com aqueles pagos em países ricos. O momento positivo se refletiu na concessão de 22188 vistos de trabalho para estrangeiros no primeiro semestre deste ano, um acréscimo de 19% em relação ao mesmo período de 2009, quando, apesar da crise, o Brasil já atraíra mais imigrantes. O total é o dobro do registrado há quatro anos veja o quadro . Americanos e britânicos lideram a nova onda migratória. Um exemplo é Jason Ward, de 39 anos, dos Estados Unidos, que há dois comanda o departamento de relações com os clientes daAzul Linhas Aéreas. "Não tive dúvidas em vir para o Brasil quando fui convidado. Ninguém da minha família ou entre os meus amigos afirmou: "Você está louco, o que vai fazer com sua carreira ". Ao contrário, as pessoas me diziam que havia muitas oportunidades no Brasil. Hoje, não tenho planos para voltar", declara Ward, que deixou um emprego na companhia aérea JetBlue, em Nova York.

Assim como Ward, os estrangeiros trazem experiência e qualificação, fatores que contribuem para o aumento da produtividade no país. Seis em cada dez profissionais "importados" possuem formação universitária, e praticamente todos têm o 2o grau completo. Por isso, receber profissionais talentosos do exterior é visto como peça fundamental no desenvolvimento de um país. Estudos mostram que estrangeiros responderam por um em cada quatro negócios lançados nas áreas de tecnologia e engenharia nos Estados Unidos de 1995 a 2005. Há diferentes maneiras de atraí-los. O Canadá e a Inglaterra são duas economias ricas que adotaram um sistema de pontuação para conceder vistos de trabalho. Critérios como anos de estudo, experiência profissional e fluência em línguas rendem pontos a mais para quem solicita o visto. Reter estrangeiros egressos da universidade é outra estratégia, por meio de concessões facilitadas do visto de trabalho ou de auxílio na transição faculdade-trabalho.

"O desafio para o Brasil é fazer com que os trabalhadores qualificados que vão para o exterior se mantenham conectados ao que acontece no país e considerem voltar quando houver boas oportunidades. É o caso da índia, que se beneficia em termos de comércio e transferência de tecnologia dos estudantes enviados ao exterior", disse a VEJA Jean-Christophe Dumont, especialista em imigração da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE . Segundo Dumont, um sistema de ensino de qualidade é um dos fatores que mais pesam para o imigrante voltar ao seu país de nascença. "As pessoas não decidem sair de um país só para ganhar mais. Pesa muito, por exemplo, saber se seus filhos terão boas oportunidades em educação." Os benefícios podem demorar anos para ser colhidos, mas compensa. "A longo prazo, ter instituições fortes de ensino e" a estratégia mais confiável para atrair talentos, porque permite um desenvolvimento contínuo desses profissionais, nativos ou não", afirmou a VEJA Darrell West. diretor e fundador do Centro para Inovação Tecnológica do Brookings Institution. em Washington.

No Brasil, acompanhando o crescimento econômico, o governo tem ampliado a concessão de bolsas de estudo para pesquisa. Indiretamente atrai também mais estrangeiros, especialmente em áreas de destaque da pesquisa nacional, como biocombustíveis, energia e nano e biotecnologia. Entre 2006 e 2010, as bolsas concedidas a pesquisadores estrangeiros pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq aumentaram 30%, de 1462 para 1 899. principalmente para as áreas de engenharia e ciências exatas e da terra. No mesmo período, o número total de bolsas subiu 36%. Diz Carlos Aragão, presidente do CNPq: "À medida que nossa produção científica se aprimora, a interação com pesquisadores internacionais torna-se mais corriqueira, e sua contribuição, mais importante. Isso reforça o dinamismo da academia, como acontece nos Estados Unidos".

Em Campinas, o projeto de modernização do Laboratório Nacional de Luz Sincrotrón LNLS atraiu o físico francês Yves Petroff. Desde novembro, ele é o diretor científico do LNLS e responde pela definição dos objetivos da nova fonte de luz sincrotrón radiação emitida pela aceleração de elétrons em uma órbita , cuja aplicação vai de pesquisas tecnológicas à criação de remédios. "O cenário científico do Brasil melhorou tremendamente, de modo que se tomou interessante trabalhar aqui. Há muita gente nova e competente no país", diz Petroff, de 73 anos, que comandou um dos principais laboratórios europeus de luz sincrotrón, entre 1993 e 2001, na França. A importação de mão de obra contribui também para atenuar a escassez de profissionais capacitados. A empresa indiana Wipro, uma das líderes mundiais em tecnologia da informação, foi a companhia que mais levou estrangeiros especializados para trabalhar nos Estados Unidos em 2009. à frente de gigantes como Microsoft e Intel. No Brasil, a Wipro tem hoje dez indianos e americanos para dar treinamento a brasileiros.

Em alguns casos, repatriar mão de obra especializada é a solução. Desde o fim de 2009. o Estaleiro Atlântico Sul, no complexo de Suape, em Pernambuco, trouxe 200 dekasseguis brasileiros descendentes de japoneses que fazem trabalhos no país asiático para ajudar na produção dos navios. São 22 encomendas só para a Transpetro, empresa do grupo Petrobras. Esses brasileiros trazem consigo a experiência de anos na indústria japonesa, uma das mais avançadas do mundo. "Eu ganhava mais no Japão, mas era por hora trabalhada. A crise internacional derrubou os ganhos. Aqui, o salário fixo dá mais segurança", diz o neto de japoneses Euclides Minoru. 41 anos, que estava naquele país havia duas décadas e trabalhava em um estaleiro em Toyohashi.

Mas depender apenas da importação de talentos não bastará para suprir a carência de profissionais treinados. Uma das soluções indicadas por especialistas para sanar essa deficiência é investir no ensino profissionalizante, menos caro e mais ágil que a opção de ampliar as universidades. Na Coreia do Sul, exemplo de nação que alcançou padrão de Primeiro Mundo após incentivar a educação, há 37 alunos no ensino técnico para cada 100 que estudam no ensino médio. No Brasil, esse índice é de 10 para 100. Governos estaduais e também o federal vêm ampliando as vagas. Demanda não falta. Em São Paulo, onde está concentrado o ensino profissionalizante, há em média cinco candidatos para cada vaga. de acordo com o Centro Paula Souza, a fundação que administra mais de 200 instituições paulistas de ensino técnico, num total de 230000 vagas. É da ampliação de iniciativas como essa que depende o crescimento duradouro do país, porque, como advertem os economistas, o baixo nível educacional dos brasileiros permanece como um dos principais motivos da desigualdade de renda e. no futuro, poderá representar um gargalo ao crescimento. A contribuição de estrangeiros é saudável e deve ser estimulada, mas por si só não trará desenvolvimento ao Brasil.

ORIGEM: NORUEGA

Quando recebeu a proposta para deixar a Dinamarca e vir para o Brasil, no inicio de 2009. a engenheira química Ragnhüd Korfits Frank, nascida na Noruega, não hesitou. Ao planejar sua carreira no gigante de biotecnologia Novozymes, trabalhar em um mercado emergente a seduzia mais que o americano, por exemplo. "É uma experiência muito valiosa, aprender como a empresa funciona fora da sede. E, aqui no Brasil, tenho mais responsabilidades", coma "Rafa", como é chamada pelos colegas de trabalho em Araucária, no Paraná. A pane difícil, brinca ela, foi explicar aos amigos escandinavos que não iria trabalhar em Copacabana nem perto da praia.

ORIGEM: ARGENTINA

Quis o destino que a Argentina se colocasse ã freme do Brasil nas oitavas de final do Mundial masculino de basquete, no inicio do mês, na Turquia. No comando da seleção brasileira desde o inicio do ano. o argentino Rubén Magnano não conseguiu derrotar seus compatriotas. "Poderia ganhar o mesmo salário em equipes na Argentina. Mas é especial treinar uma seleção em grandes competições. Profissionalmente, é muito mais importante ", explica Magnano, 55 anos, com um currículo que já inclui um ouro olímpico e uma prata em Mundiais. Sua principal missão será preparar uma equipe competitiva para a Olimpíada de 2016, no Rio — capaz, obviamente, de bater os hermanos.

ORIGEM: FRANÇA

A oportunidade de comandar a atualização de um centro de pesquisa para transformá-lo em um dos mais modernos do mundo foi o que atraiu o físico francês Yves Petroff para Campinas. O Laboratório Nacional de Luz Sincrotrón estuda a radiação emitida pela aceleração de elétrons em uma órbita, com aplicações em diferentes áreas. Petroff, que comandou por oito anos um dos principais laboratórios europeus, elogia o avanço da ciência no país. "O Brasil mudou muito nos últimos anos. A Fapesp agência paulista de fomento à pesquisa é quase a única í a oferecer boas condições I ao pesquisador, e eu í já estive em muitos países europeus e americanos. Não g deveria ser difícil atrair mais doutores estrangeiros."

ORIGEM: BOLÍVIA

José Luis Chambi anda feliz da vida. Mudou de emprego neste ano e agora ganha 700 reais por mês em uma oficina de costura na Vila Maria, bairro de classe média da Zona Norte de São Paulo. Pai de Daniela, nascida há dois anos no Brasil, ele deu entrada na documentação para regularizar sua permanência no país e planeja voltar a La Paz no fim do ano para visitar parentes e familiares, viajando de ônibus. Quando veio para o Brasil, em março de 2008. Chambi. 22 anos, deixou para trás um emprego como funileiro em que mal ganhava o suficiente para sobreviver. "Tive de aprender a costurar. Mas não é difícil. Hoje tenho uma família e consigo guardar dinheiro no fim do mês."

0RIGEM: JAPÃO

Navegando pela internei, o sansei new de japoneses Euclides Minoru descobriu que unia empresa no Nordeste buscava soldadores especializados na indústria naval. Trabalhando em Toyohashi, no Japão. Minoru tinha visto a crise reduzir seus ganhos em até 50%. Entrou em contato com o Estaleiro Atlântico Sul e. meses depois, desembarcou no complexo de Suape. no litoral pernambucano. Minoru. 41 anos, abriu caminho para dekasseguis novamente, agora fazendo o caminho inverso. Trouxe colegas de Toyohashi, como Alexandre Naruto. "A situação do Japão está muito ruim. Aqui ganho menos, mas tenho estabilidade", diz Naruto, de 27anos.