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Publicado em: O Globo (Ciência e Vida) em 25 de Fevereiro de 1996

Descobertas as ossadas mais antigas do Brasil

Por Ana Paula Macedo

Esqueletos fossilizados de um adulto e de uma criança com 11 mil anos de idade são encontrados no Sudoeste de Goiás.

JATAÍ, Goiás - Pesquisadores da Universidade Católica de Goiás (UCG) descobriram dois esqueletos humanos fossilizados que podem ser os mais antigos já encontrados no Brasil, com 11 mil anos de idade. A descoberta, feita no início do mês no município de Serranópolis, no interior de Goiás, confirma a antiga teoria de que a região do cerrado detém o mais antigo patrimônio arqueológico do país. O antropólogo responsável pela descoberta, Altair Sales Barbosa, da UCG, revelou que foram encontradas, lado a lado, as ossadas de um homem e de uma criança. - Pela primeira vez se conhece a cara do homem primitivo - afirma Barbosa. A descoberta foi o resultado de um trabalho que vem sendo desenvolvido há mais de 20 anos na região envolvendo 50 pesquisadores. Barbosa explica que, há cerca de 15 mil anos, os primeiros habitantes da América do Sul se dirigiram para as savanas - regiões muito parecidas com o cerrado - na Venezuela e na Colômbia. Lá encontraram condições favoráveis de sobrevivência, mas três mil anos depois enfrentaram dificuldades e tiveram que se mudar, pois a savana tinha se tornado mata e havia falta de caça. De acordo com essas pesquisas, os primitivos acabaram chegando ao cerrado brasileiro, aproximadamente há 12 mil anos. Nessa região teriam permanecido a maior parte do tempo (por 550 gerações). Segundo Barbosa, esse é o motivo de ele acreditar que está no cerrado a maior riqueza arqueológica do continente. - Os homens primitivos colonizaram os dois milhões de quilômetros quadrados de cerrado. Quando chegaram aqui encontraram clima, fauna, flora e os abrigos naturais ideais - aposta o professor da UCG. Próximo aos esqueletos, as últimas escavações revelaram ainda outras riquezas nunca antes achadas no país: colares de dentes humanos, anzóis de ossos e até peças de colares trabalhados em madrepérola. Até agora, ossadas mais antigas tinham cerca de 9.500 anos Segundo Barbosa, tudo isso parece desbancar a tese de que São Raimundo Nonato, no Piauí, seria o principal sítio arqueológico do país. Até a localização dos dois esqueletos de Serranópolis, as ossadas mais antigas, com idade aproximada de 9.500 anos, tinham sido encontradas no interior do Piauí. Agora, Altair Barbosa não tem mais dúvidas de que, na verdade, os homens primitivos chegaram a São Raimundo Nonato depois de passarem pelo Centro-Oeste. - Além de São Raimundo Nonato, já foram encontrados outros sinais de presença humana até mais antigos, como no Vale do Guaporé, datados de 12 mil anos atrás. Só que apenas artefatos, fogueiras e restos de alimentos. Esses são os primeiros esqueletos humanos, dos primeiros grupos que chegaram à região - ressalta o professor. Já batizado de Homem da Serra do Cafezal, em homenagem ao nome original do local onde foi desenterrado, o esqueleto masculino, que teria morrido com idade entre 25 e 30 anos, se tornou a maior relíquia do Museu Histórico Francisco Honório Campos, da cidade de Jataí, a 40 quilômetros de Serranópolis. O fóssil foi localizado numa profundidade de 1,90 m, na Gruta do Diogo - uma das mais ricas da região em material arqueológico -, em condições de preservação surpreendentes, apesar de estar sob grandes blocos de pedra. Sepultado em posição fetal, apenas parte do crânio e ossos maiores apresentam fragmentação. No momento da descoberta, foi possível constatar com clareza que a mão direita estava sob a cabeça e a esquerda sobre a região pubiana. Porém, o segundo esqueleto, localizado logo ao lado, encontra-se em estado de conservação precário. Amostras dos dois esqueletos - cerca de 50 gramas de ossos de cada um - foram enviadas ontem ao Instituto Smithsoniano, em Washington, para datação definitiva pelo método de carbono 14. Fazendeiro foi pioneiro na região JATAÍ, Goiás - Graças à sua curiosidade, o fazendeiro Binômino da Costa Lima desempenhou importante papel na descoberta das ossadas. Foi ele que, depois de ler publicações especializadas, imaginou que Serranópolis poderia ser um santuário arqueológico brasileiro. Ao andar por suas terras e fazendas vizinhas, no início da década de 70, viu indícios que sugeriam a passagem de homens primitivos pela região. Durante cinco anos, fez um levantamento detalhado de cada gruta de Serranópolis, onde encontrou sinais de pinturas e artefatos jamais imaginados. Lima passou a tirar fotos de tudo o que encontrava e hoje tem um acervo de mais de dez mil slides. O fazendeiro contou que decidiu procurar especialistas em 1975, quando não tinha mais dúvidas de que a área era na verdade um importante sítio arqueológico. Entrou em contato com o professor Pedro Ignácio Schimitz, do Instituto Anchietano de Pesquisas, e o professor Altair Barbosa, da Universidade Católica de Goiás. Das 400 grutas localizadas na região, Lima diz ter mapeado cerca de 10%. - Do contrário ninguém ia acreditar - explicou. INTELIGÊNCIA É EMOÇÃO Antônio Marinho Pesquisador de Harvard mostra que o raciocínio se mede pelo quociente emocional, o Q. E. O autocontrole das emoções determina a inteligência. Esta é a tese que o psicólogo Daniel Goleman, PhD pela Universidade de Harvard, defende no livro "Emotional intelligence" (da editora Bantam Books), que está na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos. Ele propõe uma nova forma de medir a inteligência, o quociente de emoção, ou Q.E., que vem substituir o velho quociente de inteligência, o Q.I., criado no começo do século pelo francês François Alfred Binet e hoje desacreditado nos meios universitários. Para Goleman, as crianças que aprendem a controlar suas emoções têm maior potencial de inteligência e mais chance de êxito na vida afetiva e profissional. Quanto mais a criança dominar seus impulsos e aprender a negociar com os outros para realizar seus desejos, mais inteligente ela será. Este tipo de inteligência não se mede com um teste de contagem numérica de pontos, como o Q.I., mas há uma série de situações que alertam pais e educadores para o desenvolvimento da criança nesta habilidade de contornar as restrições a seus desejos. As pesquisas de Goleman mostraram que as crianças que têm dificuldade de relacionamento na escola têm oito vezes mais chances de fracassar em suas ambições. Outro indicador importante: crianças que não sabem controlar a gula ou que não têm limites em suas manias estão enviando sinais de um perigoso descontrole emocional. - É fundamental que pais e educadores estejam atentos a estes sinais, enquanto as conexões neuronais do cérebro ainda estão sendo formadas e ainda há chance de recuperar defasagens do ponto de vista neurológico - avalia Goleman. Os cientistas concordam que os dois primeiros anos de vida são o período de mais intensa multiplicação das sinapses - as conexões entre neurônios, que criam as estruturas mentais e regem as condições de aprendizagem. Mas a formação básica do cérebro leva mais tempo: uns dizem que vai até os 7 anos, outros até os 11.0 neurobiólogo Paski Rakic, da Universidade de Yale, compara o cérebro humano a uma espécie de massa bruta, "cuja modelagem se intensifica aos 2 e se completa aos 11 anos". O pesquisador de Harvard classifica impulsos e emoções pela dificuldade de serem controlados, de acordo com as pesquisas. Ele avalia, por exemplo, que os impulsos da gula são mais resistentes ao autocontrole do que os da raiva. Um dos testes usados pelo psicólogo para avalizar a importância do Q.E. foi um estudo feito nos anos 60, na Universidade de Stanford, com 60 crianças de 4 anos, postas diante de um pequeno sorvete com cobertura de marshmallow, com um desafio: devorá-lo naquele momento ou ganhar o dobro de sorvete, caso tivesse paciência de esperar a professora voltar à sala de aula. Os pesquisadores de Stanford acompanharam as crianças até a adolescência e constataram um desempenho escolar e profissional bem mais alto entre as que haviam resistido à tentação e esperado a hora certa para satisfazer seus desejos com o prêmio em dobro. - Aqueles que aprenderam, na infância, a negociar a satisfação de seus desejos se tornaram adultos mais habilitados à busca da própria felicidade - interpreta Goleman. Entre as emoções, o controle da ansiedade é o mais controvertido. Goleman diz que um pouco de ansiedade é ótimo para apurar a rapidez de raciocínio e aumentar a concentração, mas alerta que ansiedade em excesso paralisa o cérebro. O mais importante, no que se refere à ansiedade, é saber administrar a carga de trabalho para não atingir níveis de estresse. Afinal, entre os quesitos da inteligência emocional está a capacidade de negociar consigo mesmo para melhor atingir objetivos, numa equação de custos e benefícios. O livro de Goleman foi recebido nos meios universitários americanos como uma resposta a The Bell curve, em que os autores Richard Hernstein e Charles Murray encaram a inteligência como a rapidez de resposta a situações-padrão, definida por um potencial exclusivamente genético, que varia de acordo com a herança racial. Os dois provocaram reações indignadas na imprensa e na universidade ao defenderem a hipótese de que as raças branca e amarelas seriam superiores à negra, em termos de herança genética, com base em pesquisas estatísticas de testes de Q.I.. Ao valorizar o autocontrole emocional como prova de inteligência, Goleman enfatizou o ambiente familiar e educacional no desenvolvimento do cérebro infantil. As pesquisas de Goleman foram bem recebidas por educadores brasileiros. A maioria concorda que o autocontrole dos impulsos sofre influência decisiva do ambiente familiar e que faz parte do afeto dos pais saber a hora de dizer não. O pediatra Ricardo Martins acha que o potencial de inteligência está associado à capacidade de percepção e o afeto dos pais é o maior estímulo. - O carinho dos pais, que vai da atenção dada às brincadeiras ao contato físico com a criança, aumenta as conexões entres os neurônios, intensificando a capacidade do cérebro - diz Martins. Também a psicóloga Regina Rodrigues, da Oficina da Memória (grupo de pesquisa e desenvolvimento do cérebro da UERJ), reconhece que a inteligência emocional é mais importante do que o Q.I. Na sua opinião, a criança que recebe atenção e carinho desde os primeiros meses de vida aprende a controlar suas emoções, favorecendo a plasticidade perceptiva das células do cérebro. - Se a criança não é estimulada na infância, diminui sua capacidade de aprendizado. Quando ela consegue lidar com o insucesso, está um passo a frente. Isto aumenta a auto-estima - afirma. A médica Tânia Guerreiro, também da Oficina da Memória, diz que a inteligência depende muito do fator emocional e da auto-imagem do indivíduo. - O autocontrole favorece a curiosidade, estimulando a inteligência. Isto se aprende na infância, em casa e na escola. Mas os adultos também podem ampliar seu potencial de conexões cerebrais, ainda que muito menos do que as crianças, exercitando-se contra a rigidez de idéias e se abrindo para a vida - avalia Tânia. Educador questiona invenção do Q.E. Emotividade influencia o aprendizado e não a inteligência Há quem questione as idéias do pesquisador americano Daniel Goleman, de Harvard. É o caso Aristeo Leite Filho, diretor da Escola Oga Mitá e da Escola de Professores. Ele diz que a inteligência é múltipla e, portanto, não se deve enfatizar apenas a emoção como aspecto mais importante no seu desenvolvimento. - A inteligência não é somente emocional ou cognitiva ou motora. P as sabemos que sem afetividade não há aprendizagem. Não adianta ser um gênio em física e ter distúrbios emocionais - diz. Ele lembra que a escola deve ter o compromisso de desenvolver a inteligência sob vários aspectos. O primeiro passo é não oferecer uma aprendizagem fragmentada, valorizando só o intelecto ou emocional. Na sua opinião, o conhecimento é construído por quem aprende. No desenvolvimento da inteligência, os pais não devem se preocupar com aspectos específicos como, por exemplo, obrigar o filho apenas a estudar. Ele precisa se relacionar com outras crianças. - O estudante inteligente não é aquele que passa em primeiro lugar no vestibular, mas o que busca a felicidade - afirma o professor.