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Publicado em: O Globo (Opinião) em 4 de Agosto de 1998

Crise de bom senso

Por VANILDA PAIVA

Nosso simpático ministro da Educação ficará na História como aquele que conseguiu provocar a mais longa greve das universidades federais do país. Não deixa de ser notável o fato de que o fez com um expediente que deveria passar como oferta de aumento salarial, algo que supostamente seria recebido com avidez por professores em jejum de reajustes há quatro anos. A oferta, porém, não continha apenas pecados mortais — como a exclusão de parte do professorado e dos funcionários ou a nebulosidade de critérios de avaliação — mas vinha envolta num pecado venial capaz de enfurecer qualquer ambiente pensante e sequioso de democracia, depois de tantos e tantos anos de tratamento ditatorial: o anúncio dizia que a recusa não seria aceita e autoritariamente a impunha o chamado Programa de Incentivo à Docência. Consta que, ao longo de tão memorável paralisação, o MEC foi obrigado a negociar, tornando parte do reajuste linear. Mas consta principalmente dos contracheques dos professores no final do mês de julho que mil artimanhas mantiveram quase tudo como dantes no quartel de Abranches: o famoso aumento atingiu cerca de 10% e os professores acabam de receber entre R$ 80 e R$ 400 líquidos. Em outras palavras, a negociação serviu como um jogo de esconde-esconde. Há uma crise de confiança no ar. Não bastassem tantos meses de confusão, eis que a UFRJ é surpreendida com a nomeação do professor Vilhena como reitor e lançada a um nova espasmo. Mais uma vez fabricado em Brasília. Dizia-se antigamente que governar com competência supunha saber evitar crises, contornar situações difíceis encontrar consensos mínimos, negociar soluções que impedissem impasses ou uso da força. Mas parece que isso foi muito antigamente. Hoje é moda o contrário; afinal, intelectual sempre acha que pensa sozinho ou que pensa melhor que os demais. Esta marca registrada — a arrogância — no poder dá no que dá. Certamente existem professores favoráveis a ter Vilhena como reitor. Afinal, ele recebeu 14% dos votos dos docentes. Mas também é certo que circulam rumores (verdadeiros, diga-se de passagem) sobre a negociação direta com o então vice-reitor Vilhena da abertura de vagas e concursos para titular no final de sua gestão em unidades onde ele encontra hoje apoio público. Como administrador (sucessivamente diretor do IFCH e vice-reitor), desconhecem-se feitos que o distingam especialmente. No entanto, o ministro — posto frente a um candidato com 38% dos votos dos docentes e Vilhena com 14% — escolheu o último e com isso prolongou/renovou/acirrou a crise. Medida contra o movimento sindical, contra o corporativismo universitário? Contar com um fantoche disposto a trazer para a universidade a orientação acionada quando da greve dos petroleiros em 1995 pode ser o sonho de alguns dirigentes e até de intelectuais governistas de plantão, mas talvez o MEC mereça ao menos o benefício da dúvida. A verdade é que um espectro ronda a escolha de dirigentes da UFRJ: a gestão Horácio Macedo e seus desmandos na segunda metade dos anos 80. Embora Vilhena também tenha sido aliado de Macedo ele é bem mais maleável, enquanto o outro candidato poderia ser visto como um retorno do "horacismo". Este não parece ser bem o caso, mas se o fosse seria verdadeiramente terrível e o ministro estaria coberto de razão ao relutar a escolher o primeiro da lista. Diz a boa política, porém, que muita conversa e boa informação constituem fontes básicas de decisões, principalmente quando elas dizem respeito a quem — por dever de ofício — lê, pensa e ensina. Diz também que as generalizações nem sempre são boas conselheiras, que é melhor conhecer especificidades e idiossincrasias. Que os problemas das universidades federais são enormes todo mundo sabe, o que absolutamente não leva a concluir que o que é bom para São Paulo é bom para o Brasil. Excesso de problemas e de dissenso deve ser motivo para prudência e para buscar informalmente caminhos intermediários. Não há quem não saiba na UFRJ que dois candidatos estiveram empatados nas preferências dos professores, não no patamar de Vilhena, mas no do primeiro candidato. Havia um tercius — a professora Vera Halfoun — tão votada pelos professores quanto Aloísio Teixeira. E de se perguntar por que o Conselho Universitário aceitou que ela renunciasse ao seu direito de integrar a lista se Vilhena não o fez. É de se perguntar por que o MEC não empreendeu gestões capazes de tornar possível o envio de uma lista com mais legitimidade. É de se indagar por que todas as instâncias apostaram no confronto. Estamos diante de uma situação em que todos erraram e quem tinha o dever de mostrar competência e evitar a crise não o fez. A UFRJ não precisa ter sua espinha dorsal quebrada de fora. A UFRJ precisa ser pacificada como condição primeira para o início de um processo de reconstrução e mudança. As conseqüências da política de fazer engolir goela abaixo diretrizes, planos e dirigentes só podem ser vistas a curto prazo em reações de momento. Mas ela pode deixar um rastro de destruição pior que o "horacismo", numa conta que só será feita e apresentada no futuro. Por isso preocupa a forma pouco sábia de nossas autoridades de lidar com os complexos problemas que atravessam a maior universidade federal do país e que se refletem no imbróglio montado em torno da escolha do seu reitor. VANILDA PAIVA é professora aposentada da UFRJ.