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Publicado em: O Globo online em 6 de Julho de 2018

Para especialistas, Embraer não poderia ficar isolada e inovação deve ganhar impulso

Por Cleide Carvalho

Capacidade de engenharia é um dos principais valores de fabricante brasileira de aviões

SÃO PAULO - Diante da evolução do mercado de aviação no mundo, a Embraer não podia ficar isolada e precisava se unir para se fortalecer, apontam especialistas, ao avaliar o acordo entre a empresa brasileira e a Boeing para a criação de uma joint venture em aviação comercial. O acerto deve dar impulso à inovação, um dos principais ativos da fabricante brasileira de aviões. Há quem defenda que o governo mantenha a ação especial na Embraer, que garante o poder de veto e pode ser um instrumento para a defesa da inovação e da competitividade da empresa.

Embraer não podia ficar isolada, diz professor da USP

O professor Jorge Eduardo Leal Medeiros, do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo, afirma que a Embraer não poderia ficar isolada e que o futuro é a globalização, mas defende que o governo brasileiro busque defender a inteligência e a criatividade da companhia para conseguir se posicionar no mercado internacional futuro.

A Embraer tem sido reconhecida como empresa inovadora. O negócio com a Boeing deve estimular isso?

Esse negócio começou com o brigadeiro Montenegro (Casimiro Montenegro), que criou o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em 1950. Fazia parte de um plano de longo prazo do governo, que resultou num trabalho muito bonito. A empresa teve altos e baixos, mas é hoje invejável do ponto de vista mundial porque é muito criativa. É um valor que ela tem de fato e é isso que lhe dá grande envergadura. Não se compara com a Boeing em tamanho de mercado, mas existe ali um trabalho muito bem feito que tem de ser de alguma forma preservado.

E como preservar essa capacidade de inovação?

Não acho que a Embraer deva ficar isolada no Estado brasileiro, porque ela tem muito mais alavancagem com a Boeing. Mas precisamos saber o seguinte: vamos vender a Embraer? A Embraer não é só aeronave. Ela comprou a Atech e o Brasil é hoje um dos poucos países do mundo, além de Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha, que desenvolve sistema de tráfego aéreo. Não podemos abrir mão disso, é importante para o futuro. Ainda não sabemos como será dividido.

Como o senhor espera que seja feito?

Li que o Tribunal de Contas da União deve aprovar a venda da golden share, a ação do governo. Isso me assusta um pouco. Acho que o governo tem que defender a golden share (ação especial, com poder de veto). Grande parte do capital da Embraer já está lá fora e é preciso preservar um pedaço nosso, que atenda aos interesses do governo e permita ao Brasil participar em mesas internacionais em posição melhor. Este negócio não é preto ou branco. É preciso ver o tom de cinza com que vamos trabalhar.

Nos últimos 10 anos a Embraer investiu no registro de patentes. Isso aumenta seu valor estratégico?

Em 2001 a Embraer criou com o ITA o Programa de Extensão em Engenharia. Fez uma colheita no Brasil inteiro para buscar engenheiro recém-formado para se especializar em aeronáutica. Praticamente todos foram contratados pela Embraer. Participei de algumas bancas e um dia cheguei lá e vi apenas o formando apresentando seu trabalho e, na plateia, a mãe, a irmã e a namorada. Estranhei, não é normal, sempre tem amigos assistindo. Foi aí que um colega do ITA contou que começaram a receber muitas visitas à biblioteca, atrás das teses defendidas pelos alunos, e descobriram que era gente da Bombardier, atrás das informações produzidas ali. A partir de então, as teses passaram a não ser divulgadas, são fechadas. É um trabalho muito interessante e totalmente voltado às necessidades da Embraer. Não é só aeronáutica, é computação de bordo, por exemplo. É uma experiência muito rica entre academia e empresa. No Brasil, é difícil acontecer essa aproximação, mas de vez em quando se consegue.

A Embraer também ajudou a desenvolver fornecedores, qual a expectativa para eles?

Ela desenvolveu não só fornecedores nacionais, mas também fornecedores estrangeiros. Estive em Évora, em Portugal, e pude ver isso (Nota da Redação: a empresa de Portugal deve ser repassada para a Boeing). Cada vez mais temos um mundo globalizado e a tendência é uniformizar. Por isso temos de preservar estrategicamente uma posição no mercado. Comércio internacional não é só dinheiro, é troca.

Inovação é um dos principais valores da Embraer

Este ano, pela terceira vez consecutiva, a Embraer liderou o ranking das 150 empresas mais inovadoras do Brasil, de acordo com o anuário Valor Inovação Brasil, produzido em parceria com a Strategy&, consultoria estratégica da PwC. Para o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o engenheiro e físico Carlos Henrique de Brito Cruz a capacidade de engenharia e inovação é um dos principais valores da Embraer e que serviu para atrair a Boeing.

Como o senhor vê o interesse da Boeing pela Embraer?

A Embraer, pelo terceiro ano consecutivo, foi escolhida a empresa mais inovadora do Brasil. Um dos grandes valores dela é justamente a capacidade de engenharia e inovação. A Embraer só pode prosperar se for competitiva mundialmente, por força do produto que ela faz. Ela iniciou com muito apoio estatal. Seus primeiros aviões foram para a Força Aérea Brasileira (FAB). Muitos países usam a capacidade de compra do Estado para desenvolver a indústria local e foi isso que aconteceu. Depois que foi privatizada, ela se tornou ainda mais competitiva e inovadora.

O que o senhor citaria como uma inovação importante nos últimos anos?

Uma das principais foi há cerca de oito anos: perceber que havia um mercado não explorado para jatos de 90 a 120 passageiros. Era um tipo de avião que ninguém no mundo estava fazendo. Foi uma inovação mercadológica que levou a empresa a ocupar o mercado mundial. Na época, uma revista americana colocou na capa que ela tinha reinventado o mercado de aviação regional. Ela identificou o mercado e teve capacidade de produzir este tipo de aeronave.

Já tivemos muitos projetos de pesquisa conjuntos e um deles foi justamente para para o desenho deste avião. O estudo foi de fluidodinâmica computacional, que envolve cálculos e modelos para a aerodinâmica do avião. Envolveu ciência sofisticada dos fluídos e de computação e foi feito em parceria não só com a Fapesp, mas também com o ITA, a Unicamp, o Centro Tecnológico da Aeronáutica, a Universidade de São Paulo e a Universidade Federal de Santa Catarina

Houve outras pesquisas em conjunto?

Outro projeto, com a Escola Politécnica da USP, foi o da aeronave silenciosa, para reduzir o ruído durante o voo. Fizemos também análise sobre o uso de biocombustível pelo setor de aviação, com as perspectivas e desafios científicos, operacionais e tecnológicos. Mas o investimento em pesquisa e desenvolvimento da Embraer é muito maior que isso. Ela tem uma atividade interna de pesquisa e desenvolvimento muito grande. É ilusão achar que a pesquisa das empresas é feita com as universidades. As pessoas pensam que é assim, mas não. A maior parte do investimento é interno, com seus engenheiros e pesquisadores: 95% é dentro da própria empresa.

O acordo deve fazer aumentar a pesquisa no Brasil?

No ranking internacional das empresas que mais investem em pesquisa no mundo, com 2.500 empresas, a Embraer apareceu em 284º lugar no período 2015/2016, com 405 milhões de euros, à frente de empresas como a Saab e a Southern Aviation. A Boeing aplicou € 2,8 bilhões e ficou em 45º lugar. A Airbus ficou em 38º lugar, com € 3,6 bilhões. O risco de levar para fora do Brasil sempre existe, em qualquer setor. Mas minha avaliação é que deve aumentar aqui. Para isso, é preciso que o país torne a atividade de P&D rentável. A Embraer é uma importante ilustração para o Brasil do valor que é gerado ao valorizar a educação superior de qualidade. Ela é fruto disso. Se não tivessem criado o ITA, não teria a Embraer. Se existissem mais institutos de excelência como o ITA, em outras áreas, poderíamos ter mais empresas como ela.

O senhor avalia positivamente a união das duas empresas?

Positivamente e pragmaticamente. As empresas de manufatura aeronáutica estão se associando em grandes conglomerados. É um movimento que acontece no mundo todo e a Embraer precisava se associar para aumentar a chance de prosperar.

Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/para-especialistas-embraer-nao-poderia-ficar-isolada-inovacao-deve-ganhar-impulso-22858112