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Publicado em: Revista Valor Inovação Brasil (3º Petrobras) em 5 de Julho de 2018

Plano é ficar mais próxima de startups

A estratégia da petroleira é não só apoiar as empresas nascentes como já faz, mas ter uma atuação mais ativa para agregar conhecimento em seus projetos

Dona de uma carteira bilionária de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), a Petrobras quer acelerar o passo rumo à revolução da indústria 4.0. A companhia elegeu a captura de oportunidades criadas pela transformação digital como uma das principais estratégias de seu atual plano de negócios. E criou este ano uma gerência voltada para definir a visão e estratégias da petroleira sobre o assunto. Ao longo de 2018, pretende rechear uma carteira de projetos para os próximos anos. Com o desenvolvimento de inovações na área da indústria 4.0, a expectativa da empresa é aumentar a segurança e a eficiência de suas operações.

Um dos objetivos é aproximar-se mais das startups. A empresa ainda está definindo o formato de como se dará esse movimento, mas uma das ideias é recorrer aos editais de inovação de instituições como Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Sebrae, para investir no desenvolvimento dessas empresas iniciantes.

Orlando Ribeiro, gerente do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo América Miguez de Mello (Cenpes), explica que, ao longo dos últimos anos, os negócios e investimentos da Petrobras em pesquisa e desenvolvimento deram origem a diversas startups, mas que trabalhar com elas nunca foi o objetivo em si.

"Agora, queremos ter uma atuação mais ativa nesse rico ecossistema de startups, acelerar nosso engajamento com o objetivo de pegar ideias e produtos utilizados por outras indústrias e trazer esse conhecimento, essa energia das startups para nossos projetos", diz Mello.

A Petrobras é uma das maiores investidoras em PDI na indústria de óleo e gás. Nos últimos dois anos, a companhia investiu cerca de R$ 1,8 bilhão por ano. E a expectativa, para os próximos anos, é aumentar esse montante, em meio ao crescimento esperado da produção no pré-sal.

Pelas regras dos contratos de concessão, a Petrobras é obrigada a investir 1% da receita bruta dos seus campos de maior rentabilidade em projetos de PD&I. Segundo Ribeiro, contudo, a empresa normalmente ultrapassa o valor obrigatório da cláusula. A estatal brasileira é, com folga, a principal investidora em PD&I da indústria de óleo e gás do país. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), desde 1998 a Petrobras já foi obrigada a investir mais de R$ 12,3 bilhões pelas cláusulas de pesquisa e desenvolvimento, enquanto todas as demais petroleiras somam cerca de R$ 1 bilhão em obrigações.

Entre seus pares globais, a Petrobras é, ao lado da francesa Total e da PetroChina, uma das que mais investem em PD&I, proporcionalmente ao seu faturamento (0,6%), acima de empresas como ExxonMobil, Shell, Chevron e BP, segundo dados da Evaluate Energy. Em números absolutos, a estatal brasileira está entre as dez mais.

Ribeiro destaca que, depois de completar um primeiro ciclo de investimentos, concentrado na construção de laboratórios espalhados por universidades e instituições de pesquisa em todo o país, a Petrobras pretende iniciar agora um ciclo de investimentos mais pesados em inovação, em si. "Agora vamos começar a investir mais para acelerar o processo de sair da pesquisa para chegar em inovação, em produto. Vamos trabalhar muito para tirar o máximo proveito possível das tecnologias que estão se tomando disponíveis na quarta revolução industrial: a transformação digital, manufatura aditiva, nanotecnologia, robótica", diz.

Ribeiro reconhece que a petroleira ainda tem "chão a percorrer" para a aplicação massiva dessas tecnologias, mas a companhia tem acelerado a aposta na transformação digital - o que, segundo o executivo, tem um potencial enorme para ajudar a simplificar processos. Ele destaca que esse reposicionamento passa também por uma mudança cultural dentro da empresa.

"Temos que desaprender a fazer as coisas de um determinado jeito e reaprender a fazer de um outro jeito diferente. Isso às vezes é difícil. Talvez seja o grande desafio, mas estamos começando pelas duas pontas: os profissionais mais novos são entusiasmados com isso e a alta administração da companhia está bem consciente do potencial e da necessidade de promover a implementação rápida dessas tecnologias e de mudar os processos."

Dentro da necessidade de desenvolvimento de uma nova mentalidade empresarial, focada em inovação, a Petrobras também está apostando em algumas mudanças no ambiente de trabalho. A estatal está criando em algumas de suas unidades, como o próprio Cenpes, salas inspiradas no conceito de design thinking. Em termos de capacitação, a empresa tem recorrido a uma série de workshops e seminários internos e externos, incluindo o estreitamento do contato com fornecedores, para discutir os potenciais de transformação digital dentro da companhia.

Entre as iniciativas que pretende desenvolver está um projeto de aprendizado de máquina (machine learning) voltado para reforçar práticas de segurança operacional em sondas de perfuração e plataformas de produção. A ideia é que as máquinas sejam capazes de identificar e alertar para possíveis situações de risco, como, por exemplo, a presença de um funcionário que esteja eventualmente sem o devido equipamento de proteção individual.

Ribeiro conta que, além da cadeia fornecedora e universidades, a Petrobras também tem estreitado a relação com petroleiras parceiras, por meio de acordos de cooperação tecnológica. O gerente afirma que, no consórcio que opera o campo de Mero (na área de Ubra), no pré-sal da Bacia de Santos, por exemplo, existe hoje uma "grande aceitação" dos sócios (Shell, Total, CNOOC e CNPC). Não à toa, a Petrobras criou o programa "Ubra Digital", que abrigará os principais projetos pilotos de tecnologias digitais a serem desenvolvidas pela estatal nos próximos anos. 'Trabalhamos com universidades e fornecedores para desenvolver tecnologia. Traball1ar com gente de fora sempre foi uma coisa que fizemos", afirma.

Na área de big data analytics, Ribeiro afirma que um dos maiores potenciais, dentro da indústria de óleo e gás, está na associação com o conceito do digital twinque combina dados digitais e operacionais de ativos industriais com uma plataforma de software, simulação e análise para obter informações sobre operações presentes e futuras. Segundo o gerente do Cenpes, a ideia é que Libra receba um projeto do tipo, voltado para maximizar a produção e recuperação de petróleo.

Para além do setor de exploração e produção, foco da companhia, a Petrobras também vê potencial para a transformação digital na área de energias renováveis. Uma das estratégias definidas dentro do plano de negócios da empresa é, justamente, desenvolver negócios de alto valor em energia renovável. "Entendemos que esses negócios [de alto valor em renováveis] já vão nascer digitais", opina.

Uma das maiores operadoras em águas profundas do mundo, a Petrobras é reconhecida internacionalmente por seus feitos. A companhia acumula três prêmios da Offshore Technology Conference (OTC), o mais recente deles em 2015, pelo conjunto de tecnologias desenvolvidas no pré-sal.

No ano passado, a estatal brasileira venceu as três categorias do prêmio de Inovação Tecnológica da ANP. Uma das soluções desenvolvidas e premiadas foi o projeto Doris-um sistema robótico móvel para inspeção remota de instalações marítimas, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Equinor (ex-Statoil).