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Publicado em: Revista Valor Inovação Brasil (Financiamento) em 5 de Julho de 2018

Duas faces da mesma moeda

Por Guilherme Meirelles

Enquanto os cortes lineares prejudicam o orçamento público, no setor privado o universo das startups segue descolado da economia real e recebe recursos de fundos de venture capital

A busca por financiamento de empresas comprometidas com a inovação atravessa um período marcado por duas realidades distintas. De um lado, os investimentos públicos tomaram-se mais escassos em função do contingenciamento de verbas adotado pelo governo federal, o que provoca críticas inclusive de pessoas ligadas às principais instituições de fomento à ciência e tecnologia. Já o setor privado, por meio dos grupos de venture capital, consegue encontrar boas oportunidades para fugir das incertezas e da volatilidade do mercado, apostando em empresas nascentes com forte potencial de crescimento.

Em 2018, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação ficou em R$ 4,6 bilhões, volume abaixo de 2017, quando a dotação foi de R$ 5,2 bilhões. "Os cortes do governo não podem ser lineares, como vem sendo feito. A gestão orçamentária precisa ser inteligente. Ciência e tecnologia são áreas estratégicas, não podem ser vistas como uma despesa econômica. O Brasil está ficando para trás, e essa perda é irrecuperável", afirma Marcos Cintra, presidente da estatal Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

A área mais atingida são os financiamentos não reembolsáveis do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), diz Cintra. "No ano passado, foram R$ 950 milhões, e a previsão para este ano é de R$ 750 milhões." A queda se deve ao valor que fica retido no fundo sob a alegação de contingenciamento. Para driblar a crise, a Finep tem lançado mão das reservas de R$ 6 bilhões de sua área bancária. Graças a essa gordura, foi possível lançar o programa Finep Startups, que vai alocar R$ 400 milhões para 400 empresas, com opção de compra ao final do terceiro ano, caso o projeto deslanche.

Para contornar a escassez de recursos, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem buscado uma parceria com a Capes para criar um fundo privado focado na internacionalização das universidades de excelência. Os recursos viriam das agências reguladoras e estariam livres da dotação orçamentária do MCTIC. "Seria possível captar R$ 3 bilhões", estima Mario Neto Borges, presidente do CNPq, que conta com orçamento de R$ 1,8 bilhão para este ano. No ano passado, o CNPq esteve ameaçado de não cumprir seus compromissos pela falta de verba. Apenas no final de dezembro, o governo descontingenciou R$ 126 milhões, que foram destinados ao pagamento de bolsas e dívidas no exterior.

Já a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) vem mantendo o repasse de 1% do orçamento, segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp. Para este ano, será destinado R$ 1 bilhão para projetos do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), ativo desde 1997, majoritariamente direcionado a áreas ligadas ao agronegócio e manufatura avançada.

O cenário ganha novos contornos no setor privado. Há um descolamento entre o comportamento da economia real e o universo das empresas inovadoras de tecnologia digital. Segundo levantamento da consultoria KPMG e da Associação Brasileira de Private Equity Venture Capital (Abvcap) referente a 2017, os investimentos em venture capital atingiram R$ 900 milhões distribuídos entre 107 empresas. Em 2016, os aportes foram de R$ 800 milhões em 84 empresas.

No caso dos fundos de venture capital, os recursos são focados em startups que estejam em uma etapa ascendente e que tenham grande propensão em escala, seja no modelo B2B ou B2C. Com base nos tíquetes médios dispendidos, o estudo realizado junto a 155 gestores apontou ainda que os fundos de venture capital contam com capital disponível para investimentos em 209 empresas nos próximos anos.

Para Anderson Thees, sócio do fundo Redpoint eventures, a diferença está no perfil das empresas e na visão de longo prazo dos investidores, que não pensam em retornos imediatos. "Em períodos de crise, nota-se um maior protagonismo das startups, principalmente aquelas que ocupam espaço no mercado para suprir as deficiências das grandes empresas. Se a economia real está caindo ou subindo, faz pouca diferença nos primeiros cinco anos de vida da empresa. Para o investidor de venture capital, a crise é o momento oportuno para fazer bons investimentos, atrair novos talentos e ter paciência e competência para ajustar a liquidez e vender na época certa", afirma.

Lançado em 2012, o fundo da Redpoint atraiu US$ 130 milhões em 25 empresas nacionais (B2B e B2C), com participação média de 25% em cada uma. Thees não especifica valores, mas diz que o maior tíquete em uma única empresa foi de US$ 6 milhões. Antes desconhecidas, algumas já se tomaram mais populares, como a Minuto Seguros, a Creditas e a Gympass.

A performance do Redpoint está longe de ser um ponto fora da curva. No ano passado, a gestora e.Bricks Ventures lançou o seu segundo fundo de venture capital, com projeção de investir R$ 300 milhões em até 12 empresas. "Já captamos R$ 240 milhões de 16 investidores, sendo que 60% aportaram no primeiro fundo. Os tíquetes nas empresas variam entre R$ 2 milhões e R$ 30 milhões", afirma Pedro Sirotsky Melzer, sócio da e.Bricks Ventures.

Por uma questão estratégica, a e.Bricks Ventures tem apostado apenas em empresas B2B, com prioridade em fintechs, educação, saúde e soluções para PMEs. "Estamos descolados da economia macro por estarmos investindo em negócios que servem para entregar ganhos e eficiência nas diversas cadeias de valor. Temos empresas que estão faturando R$ 3 milhões a até R$ 100 milhões, todas com perspectivas de crescimento acelerado."

A gestora já se desfez de duas empresas a portadas no primeiro fundo, lançado em 2014, e deve vender sua participação em mais duas nos próximos meses. Uma delas foi a startup mineira App Prova, vendida para o grupo educacional Somos. Segundo Melzer, o retorno médio anual do investimento foi superior a 50%.

A crise e a baixa recuperação da economia não alteraram a estratégia da Bossa Nova Investimentos, que investe em 341 empresas (240 brasileiras e 137 americanas), a maioria no modelo B2B. O requisito é que tenham padrão mínimo de governança e mais de 18 meses de vida. "Há um clima positivo, principalmente após a regulamentação das fintechs, da lei do investimento-anjo e do crowdfunding nos últimos meses", diz João Kepler, sócio da Bossa Nova. Para a gestora, as probabilidades de atingir e até superar a meta se tornaram mais próximas após a parceria com o Banco BMG, que adquiriu 20% da Bossa Nova. A equipe cresceu e hoje é composta por 20 pessoas.

Com a nova estrutura, Kepler ficou dedicado ao mercado doméstico, enquanto o sócio Pierre Schurmann prospecta o mercado nos Estados Unidos e outros países. "Estamos de olho na Argentina, no Chile, Colômbia e México", diz Schurmann. O portfólio da Bossa Nova está avaliado em R$ 6,8 bilhões.

De acordo com Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), estima-se que existam cerca de 10 mil startups no Brasil, mas o bilhete da sorte é para poucos. "Os fundos buscam startups em ascensão, que resolvam situações de forma inovadora e escalável. Já os recursos públicos destinam-se mais para projetos envolvidos com universidades que tenham base científica e pessoas qualificadas", afirma.

No caso da gestora SPVentures, a composição do portfólio agrada as duas partes. Com um fundo formado em 2014, no qual foram investidos R$ 105 milhões, a gestora é focada em empresas de tecnologia ligadas ao agribusiness, todas atuantes no Estado de São Paulo. "É um setor no qual as grandes corporações demonstram interesse pela compra por serem tecnologias específicas", diz Francisco Jardim, sócio da SP Ventures. Os recursos do fundo são do Fundo de Inovação Paulista (FIP), com aportes da Finep, Desenvolve SP, Fapesp, Sebrae-SP, CAF e Jive Investiments.

Uma opção é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da BNDESPar, que conta com 20 fundos ativos em investimentos em 170 empresas. O capital comprometido é de R$ 2,4 bilhões. Segundo Fernando Rieche, gerente de área de investimentos, fundos e garantias do BNDES, o banco vai criar o Fundo de Co-Investimento Anjo, pelo qual a BNDESPar entra com R$ 1 a cada R$ 1 do investidor. O fundo deverá ter patrimônio de R$ 200 milhões, e os aportes do banco devem ficar entre R$ 100 mil e R$ 500 mil por empresa.