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FAPESP na Mídia

Publicado em: Época em 2 de Abril de 2018

O primeiro a cair na rede

Por Sérgio Matsuura

Hoje aposentado, computador da UFRJ inaugurou conexão à internet no Brasil

Com um monitor pequeno e uma aparência atarracada, o velho computador ainda dá sinais de vida, apesar de estar aposentado há 24 anos. Ao ser ligado, o ronco do disco rígido de 10 megabytes mostra que o hardware funciona, e a tela monocromática ainda emite sua luz verde característica. Mas um pino quebrado no cabo que liga o gabinete ao monitor impede a exibição do sistema operacional na tela.
“Ele ainda funciona, não faz muito tempo que o liguei”, afirmou o professor Edmundo de Souza e Silva, do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “O problema é que esse cabo não é mais vendido, vamos precisar montar um novo”, explicou.
O PC xt 8086 ocupa um lugar de destaque no laboratório comandado pelo professor. Silva trata o computador com reverência por se tratar do primeiro no Brasil que conseguiu acessar diretamente a nsfnet, a rede acadêmica da americana Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês), que viria a se tornar a internet como conhecemos hoje.
Em 1984, Silva concluiu seu doutorado em ciência da computação na Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), considerada o berço da internet — foi de lá que Leonard Kleinrock enviou em 29 de outubro de 1969 a primeira mensagem pela Arpanet, considerada a precursora da nsfnet, para um computador em Stanford. Após curto período na International Business Machines (IBM), o pesquisador retornou ao Brasil em 1986 e deparou com uma dura realidade. “Eu fiz meu doutorado no departamento onde a internet foi fundada. Cheguei aqui e não tinha nada”, lembrou. “Então, fomos construir.”
Por causa de uma política de reserva de mercado vigente na época, importar equipamentos era muito difícil. Com verba liberada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), ele conseguiu comprar o PC XT 8086. A configuração era básica: processador de 4,77 mega-hertz e memória ram de 640 kilobytes. Desempenho que impressionava seus usuários à época e que hoje é superado por qualquer celular à venda no mercado.
“A gente não comprava computadores nas lojas, como hoje. Existiam os montadores, que traziam peças de fora e montavam os PCS. Eram como os montadores de móveis”, comparou Silva. “Quando liberaram o dinheiro, procurei um imediatamente. Por causa da inflação, se passasse um mês, eu não conseguiria mais comprar. Foi o que deu.”
Acontece que o PC rodava o sistema operacional dos, da Microsoft, mas o professor trabalhara os últimos anos com o Unix. A solução: conectá-lo à internet para que funcionasse apenas como um terminal, usando os computadores da Ucla. Com contatos na universidade californiana, Silva solicitou a conexão, e a resposta veio em setembro de 1987, quando já estava na Coppe/UFRJ. Em carta, Lawrence Landweber, criador da Computer Science Network (CSNET, rede que se transformou na NSFNET), informou que a nsf e a Darpa (agência do governo americano para o desenvolvimento de pesquisas militares) haviam dado permissão para a conexão por Protocolo de Internet (IP, na sigla em inglês) do Brasil com os Estados Unidos.
O primeiro teste aconteceu logo após o recebimento da carta, mas não funcionou. Faltava um equipamento capaz de rotear o tráfego IP. A solução encontrada pelos pesquisadores brasileiros para se conectarem com o mundo foi a adesão à Bitnet, tecnologia anterior à internet que rodava exclusivamente em computadores IBM, mas permitia ao menos o envio e recebimento de e-mails. “Era um quebra-galho”, afirmou Silva.
A primeira conexão por meio da Bitnet aconteceu em 1988, entre a rede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Laboratório de Física do Departamento de Energia (Fermilab, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Essa mesma linha, com 4.800 bits por segundo, transportou pacotes ip em janeiro de 1991 — fato que alguns consideram o primeiro contato brasileiro com a internet, apesar de a conexão com a rede ter sido feito de forma indireta, por meio do Fermilab.
No mesmo período, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) gestava a Rede Rio para interligar instituições acadêmicas do estado. A estreia aconteceu no dia 22 de maio de 1992 e teve o PC XT 8086 do professor Silva como estrela principal, que se conectou diretamente à rede.
Diante de autoridades e jornalistas, o computador instalado num auditório na UFRJ acessou a biblioteca da Universidade da Califórnia. “Eu estava sentado, operando esse ‘bichinho’, e usei minha conta na Ucla para entrar na biblioteca da universidade. Nós acessamos a obra do professor Leopoldo de Meis, que foi aqui da UFRJ e era reconhecido internacionalmente”, relatou.
Para os técnicos, tudo correu como esperado, mas os leigos não acreditaram no que viram, conta o professor Luis Felipe Magalhães de Moraes, do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe/UFRJ, que na época coordenava o Projeto Rede Rio. “As pessoas não sabiam de onde vinha aquilo. Se era uma transmissão pela internet ou alguém estava escrevendo aquilo. Depois da apresentação, um jornalista me chamou no canto e perguntou qual era o truque. Sem acreditar, me perguntou se o computador tinha algum programa instalado”, lembrou.
O diretor de Orçamento e Controle da Coppe/UFRJ, Fernando Peregrino, que na época era superintendente da Faperj, lembrou os desafios enfrentados para a conexão do Brasil com a internet. Técnicos da extinta Telerj tiveram de selecionar as linhas com a velocidade requerida — de 64 kilobits por segundo — para conectar o roteador na UFRJ com a Embratel, que transmitia o sinal por satélite para os Estados Unidos. Segundo ele, as pessoas que sabiam do que se tratava a internet “cabiam num ônibus”. Então, explicar a importância da rede não era tarefa fácil, especialmente para os tomadores de decisão.
“Quando a gente conectou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, eu apresentei a internet ao (Leonel) Brizola e ao Darcy Ribeiro. Eu falei: ‘Governador, vou lhe mostrar um sistema de comunicação novo’. E eles não se mostraram interessados”, relembrou Peregrino. “Então, acessei a Biblioteca do Congresso americano e disse: ‘Governador, essa tela está a 12.000 quilômetros de distância. Vou perguntar se o senador Darcy Ribeiro tem livros guardados lá’. Eram 12 livros do Darcy. Mas eu tinha de agradar ao governador e procurei por livros sobre ele: apareceram três. Eles agradeceram, mas minha sensação foi de que não entenderam nada do que tinha acontecido”, afirmou.
Com a conexão estabelecida, Silva pôde usar o PC XT 8086 apenas como um terminal para acessar os computadores da Ucla. Em 1994, após oito anos de serviços prestados e papel fundamental no desenvolvimento da internet no país, a máquina foi substituída por uma mais moderna. A partir de então, ocupa um espaço no laboratório e na memória afetiva do pesquisador. “Certa vez, alguns alunos quase o jogaram fora, sem saber da importância desse computador”, disse Silva. “Gosto de mantê-lo aqui para lembrar aos estudantes que hoje, apesar das dificuldades, eles têm uma estrutura muito melhor do que tínhamos no passado.”

Com um monitor pequeno e uma aparência atarracada, o velho computador ainda dá sinais de vida, apesar de estar aposentado há 24 anos. Ao ser ligado, o ronco do disco rígido de 10 megabytes mostra que o hardware funciona, e a tela monocromática ainda emite sua luz verde característica. Mas um pino quebrado no cabo que liga o gabinete ao monitor impede a exibição do sistema operacional na tela.

“Ele ainda funciona, não faz muito tempo que o liguei”, afirmou o professor Edmundo de Souza e Silva, do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “O problema é que esse cabo não é mais vendido, vamos precisar montar um novo”, explicou.

O PC xt 8086 ocupa um lugar de destaque no laboratório comandado pelo professor. Silva trata o computador com reverência por se tratar do primeiro no Brasil que conseguiu acessar diretamente a nsfnet, a rede acadêmica da americana Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês), que viria a se tornar a internet como conhecemos hoje.

Em 1984, Silva concluiu seu doutorado em ciência da computação na Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), considerada o berço da internet — foi de lá que Leonard Kleinrock enviou em 29 de outubro de 1969 a primeira mensagem pela Arpanet, considerada a precursora da nsfnet, para um computador em Stanford. Após curto período na International Business Machines (IBM), o pesquisador retornou ao Brasil em 1986 e deparou com uma dura realidade. “Eu fiz meu doutorado no departamento onde a internet foi fundada. Cheguei aqui e não tinha nada”, lembrou. “Então, fomos construir.”

Por causa de uma política de reserva de mercado vigente na época, importar equipamentos era muito difícil. Com verba liberada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), ele conseguiu comprar o PC XT 8086. A configuração era básica: processador de 4,77 mega-hertz e memória ram de 640 kilobytes. Desempenho que impressionava seus usuários à época e que hoje é superado por qualquer celular à venda no mercado.

“A gente não comprava computadores nas lojas, como hoje. Existiam os montadores, que traziam peças de fora e montavam os PCS. Eram como os montadores de móveis”, comparou Silva. “Quando liberaram o dinheiro, procurei um imediatamente. Por causa da inflação, se passasse um mês, eu não conseguiria mais comprar. Foi o que deu.”

Acontece que o PC rodava o sistema operacional dos, da Microsoft, mas o professor trabalhara os últimos anos com o Unix. A solução: conectá-lo à internet para que funcionasse apenas como um terminal, usando os computadores da Ucla. Com contatos na universidade californiana, Silva solicitou a conexão, e a resposta veio em setembro de 1987, quando já estava na Coppe/UFRJ. Em carta, Lawrence Landweber, criador da Computer Science Network (CSNET, rede que se transformou na NSFNET), informou que a nsf e a Darpa (agência do governo americano para o desenvolvimento de pesquisas militares) haviam dado permissão para a conexão por Protocolo de Internet (IP, na sigla em inglês) do Brasil com os Estados Unidos.

O primeiro teste aconteceu logo após o recebimento da carta, mas não funcionou. Faltava um equipamento capaz de rotear o tráfego IP. A solução encontrada pelos pesquisadores brasileiros para se conectarem com o mundo foi a adesão à Bitnet, tecnologia anterior à internet que rodava exclusivamente em computadores IBM, mas permitia ao menos o envio e recebimento de e-mails. “Era um quebra-galho”, afirmou Silva.

A primeira conexão por meio da Bitnet aconteceu em 1988, entre a rede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Laboratório de Física do Departamento de Energia (Fermilab, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Essa mesma linha, com 4.800 bits por segundo, transportou pacotes ip em janeiro de 1991 — fato que alguns consideram o primeiro contato brasileiro com a internet, apesar de a conexão com a rede ter sido feito de forma indireta, por meio do Fermilab.

No mesmo período, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) gestava a Rede Rio para interligar instituições acadêmicas do estado. A estreia aconteceu no dia 22 de maio de 1992 e teve o PC XT 8086 do professor Silva como estrela principal, que se conectou diretamente à rede.

Diante de autoridades e jornalistas, o computador instalado num auditório na UFRJ acessou a biblioteca da Universidade da Califórnia. “Eu estava sentado, operando esse ‘bichinho’, e usei minha conta na Ucla para entrar na biblioteca da universidade. Nós acessamos a obra do professor Leopoldo de Meis, que foi aqui da UFRJ e era reconhecido internacionalmente”, relatou.

Para os técnicos, tudo correu como esperado, mas os leigos não acreditaram no que viram, conta o professor Luis Felipe Magalhães de Moraes, do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe/UFRJ, que na época coordenava o Projeto Rede Rio. “As pessoas não sabiam de onde vinha aquilo. Se era uma transmissão pela internet ou alguém estava escrevendo aquilo. Depois da apresentação, um jornalista me chamou no canto e perguntou qual era o truque. Sem acreditar, me perguntou se o computador tinha algum programa instalado”, lembrou.

O diretor de Orçamento e Controle da Coppe/UFRJ, Fernando Peregrino, que na época era superintendente da Faperj, lembrou os desafios enfrentados para a conexão do Brasil com a internet. Técnicos da extinta Telerj tiveram de selecionar as linhas com a velocidade requerida — de 64 kilobits por segundo — para conectar o roteador na UFRJ com a Embratel, que transmitia o sinal por satélite para os Estados Unidos. Segundo ele, as pessoas que sabiam do que se tratava a internet “cabiam num ônibus”. Então, explicar a importância da rede não era tarefa fácil, especialmente para os tomadores de decisão.

“Quando a gente conectou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, eu apresentei a internet ao (Leonel) Brizola e ao Darcy Ribeiro. Eu falei: ‘Governador, vou lhe mostrar um sistema de comunicação novo’. E eles não se mostraram interessados”, relembrou Peregrino. “Então, acessei a Biblioteca do Congresso americano e disse: ‘Governador, essa tela está a 12.000 quilômetros de distância. Vou perguntar se o senador Darcy Ribeiro tem livros guardados lá’. Eram 12 livros do Darcy. Mas eu tinha de agradar ao governador e procurei por livros sobre ele: apareceram três. Eles agradeceram, mas minha sensação foi de que não entenderam nada do que tinha acontecido”, afirmou.

Com a conexão estabelecida, Silva pôde usar o PC XT 8086 apenas como um terminal para acessar os computadores da Ucla. Em 1994, após oito anos de serviços prestados e papel fundamental no desenvolvimento da internet no país, a máquina foi substituída por uma mais moderna. A partir de então, ocupa um espaço no laboratório e na memória afetiva do pesquisador. “Certa vez, alguns alunos quase o jogaram fora, sem saber da importância desse computador”, disse Silva. “Gosto de mantê-lo aqui para lembrar aos estudantes que hoje, apesar das dificuldades, eles têm uma estrutura muito melhor do que tínhamos no passado.”