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Publicado em: Valor Econômico (Especial - Energia) em 28 de Agosto de 2017

Mudança climática pauta o futuro dos renováveis

Por Martha San Juan França

Redução de emissões requer aumento da eficiência energética

A preocupação com as mudanças climáticas pauta o atual bom momento das energias renováveis no mundo. O processo de transformação sem precedentes das duas últimas décadas, motivado pela necessidade de diminuir as emissões de carbono, levou a Agência Internacional de Energia (AIE) a estimar um aumento da capacidade global de produção de energia renovável da ordem de 42% nos próximos cinco anos, superando as previsões anteriores de 13%.

Outro estudo, da consultoria internacional REN21, mostra crescimento recorde de 9% em 2016, em relação ao ano anterior, no uso de fontes renováveis, devido principalmente a novas instalações de energia solar fotovoltaica (47%), seguida de eólicas (34%) e de hidrelétricas (15,5%).

"Na década de 1970, quando se começou a falar em desenvolvimento sustentável, a busca de novas fontes de energia era motivada pela segurança energética, uma vez que se acreditava que as reservas de petróleo estariam esgotadas daí há poucos anos", lembra Roberto Schaeffer, do Programa de Planejamento de Energia da Coppe/UFRJ. "Hoje, um tema crítico são as mudanças climáticas devido às emissões de dióxido de carbono na atmosfera principalmente pela produção de energia de origem fóssil, e em menor grau a preocupação com a qualidade do ar e a competitividade econômica."

Schaeffer cita o Acordo de Paris, resultado da COP-21, segundo o qual 195 países concordaram em limitar o aquecimento global abaixo de 2º C em relação aos níveis da era pré-industrial até o final do século. A maioria se comprometeu a ampliar o uso de energias renováveis e a eficiência energética por meio de suas INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas) e reavaliar suas políticas de subsídios a combustíveis fósseis. Compromissos com a energia renovável também foram assumidos por governos regionais, estaduais e municipais, bem como pelo setor privado.

No entanto, alertam os especialistas, mesmo que novas tecnologias que utilizam fontes renováveis, como eólica e solar, estejam se tornando mais competitivas, não é provável que as termelétricas sejam eliminadas no curto e no médio prazo, embora haja tentativas de evitar que o efluente da geração térmica chegue à atmosfera por meio, por exemplo, de captura de carbono.

Os entraves não se limitam a eventuais gargalos tecnológicos e à necessidade de grandes investimentos. "A China não vai deixar de utilizar usinas a carvão nos próximos 30 a 40 anos, mesmo com todo o investimento que vem fazendo na expansão de fontes renováveis", exemplifica Schaeffer.

"O investimento em novas tecnologias renováveis é a maneira correta de enfrentar o problema do clima, mas as pessoas perdem a perspectiva de que a quantidade de energia consumida no mundo é enorme e a infraestrutura de petróleo levou cerca de cem anos para ser implementada, e não deve desaparecer tão cedo", diz o físico José Goldemberg, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Ele afirma que a contribuição de fontes como eólica e solar à matriz energética mundial é muito pequena e seu impacto isolado não é satisfatório. "Tão ou mais importante é a contribuição da eficiência energética nas construções, no sistema de aquecimento, no desempenho dos automóveis, nas fábricas e no setor produtivo em geral."

Outro desafio, segundo Gilberto Jannuzzi, coordenador do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais da Fapesp, é a alteração na forma como são produzidos bens e serviços e nos hábitos de consumo da população. "É urgente uma mudança de comportamento e instrumentos institucionais para tirar partido das novas tecnologias se quisermos manter o clima com algum grau de controle."

É essencial mudar as regras, regulamentos e instituições para acomodar as novas tecnologias, que são gerenciadas de maneira muito diferente, acrescenta o físico Paulo Artaxo, que também faz parte da coordenação do Programa da Fapesp. "A energia fóssil depende de grandes monopólios, enquanto a geração com solar fotovoltaica, biomassa, eólica ou mesmo gás natural em pequenas unidades constitui uma alternativa descentralizada de atendimento", afirma. "Essa transição com níveis adequados de segurança e confiabilidade, mesmo quando incentivada como já ocorre em países europeus, é complicada e custosa e obrigatoriamente deve demorar dezenas de anos."

Para Artaxo, as questões climáticas requerem um conjunto de medidas que vão reestruturar economicamente a sociedade. "Não será possível estabilizar ou diminuir as emissões de carbono em um sistema que exige que os países continuem crescendo infinitamente."