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Publicado em: Revista Valor Inovação Brasil (Suplementos & Revistas) em 4 de Julho de 2017

Conectados com o futuro

Por Mario Henrique Viana

A indústria automotiva tem na tecnologia da informação a principal ferramenta para dar mais autonomia à operação das máquinas

Todos os dias, aproximadamente US$ 4 milhões deixam os cofres da John Deere no mundo todo para pagar algum tipo de investimento em pesquisa e desenvolvimento (PD). Para a empresa, uma das líderes globais em máquinas agrícolas, fundada há 180 anos, justamente para fabricar e comercializar algo que não existia até lá -um arado autolimpante de aço polido-, inovação é o único caminho possível.

"Sabemos que inovação não acontece sem um entendimento profundo das necessidades do cliente e da situação do mercado", afirma Alex Foessel, diretor de PD para América Latina. Se em 1837, no interior dos Estados Unidos, a questão era ganhar tempo na limpeza do arado e, portanto, mais eficiência na colheita, hoje, no Brasil, as várias cadeias agrícolas de valor, como cana, café, grãos, algodão, pecuária e outras, buscam mais eficiência no processo todo, que inclui mais de um plantio por ano. "Aqui não temos um inverno rigoroso, pragas se desenvolvem o ano todo e temos duas, às vezes três, safras anualmente. Isso marca a necessidade urgente de se trazer mais tecnologia para o setor agrícola", observa o executivo.

Ele esteve pessoalmente na Campus Party deste ano para falar aos jovens aficionados pela tecnologia sobre a importância de olharem para o setor agrícola. "Estamos vendo os 'millenials' fazerem maravilhas com seus aplicativos nos ambientes urbanos. É preciso que eles tragam seu olhar para o campo", defende Foessel. Ao se embrenhar no ambiente tecnológico das startups, a empresa pretende incrementar os serviços tecnológicos que já oferece pela rede de mais de 250 concessionárias no país, como o monitor de colheita de cana. "É um serviço que utiliza sensores de imagem no elevador da colhedora que fazem a leitura dos percentuais de impureza vegetal e de produtividade por hectare", explica.

Para garantir que novas ideias surjam regularmente, e processos e produtos sejam melhorados, a empresa tem centros de pesquisa e desenvolvimento nos Estados Unidos, Alemanha, China, Índia e Brasil, e mantém um programa interno de reconhecimento global e estímulo a boas ideias. Nesse ambiente, surgiu, no Brasil, a ideia de passar a utilizar uma barra de fibra de carbono para a fabricação de pulverizadores, em vez da consolidada barra de aço.

A ideia foi debatida internamente e com um fornecedor, que produziu as primeiras barras para protótipos. O novo pulverizador foi apresentado ao mercado ainda em versão piloto na Agrishow de 2015. Nessa oportunidade, vários lotes das máquinas foram avaliados em sua funcionalidade, e novas melhorias foram implementadas. Em fevereiro de 2016, a equipe do projeto recebeu da matriz o reconhecimento oficial pela inovação, e a produção em série do equipamento começou dois meses depois. Hoje os dois modelos estão no mercado. "Conseguimos assim desenvolver um pulverizador mais leve, resistente, econômico e produtivo", sintetiza Foessel.

A CNH Industrial, multinacional que controla marcas de veículos e máquinas agrícolas e para construção, também investe no fluxo interno de boas ideias, que possam tornar mais eficientes os processos de produção. "O Brasil é benchmark global nesse programa", conta o diretor de desenvolvimento de produto e engenharia para América Latina, Sérgio Soares. Segundo ele, o país lidera as estatísticas globais da empresa com 25 novas ideias por funcionário, por ano. "Muitas vezes são pequenas ideias, coisas simples, mas que têm feito nosso custo operacional cair 8% ano após ano", sustenta o executivo.

A empresa investe cerca de 3% de seu faturamento global em PD. No ano passado, essa quantia ficou em US$ 860 milhões. No Brasil, nos próximos três anos, a CNH deve aportar recursos da ordem de US$ 135 milhões em inovação. Anualmente, o departamento de PD realiza a Semana da Inovação, quando fornecedores, universidades, instituições e consultorias são convidados a dialogar por soluções. "Internet das coisas é um dos nossos focos, com muitos projetos em andamento, como o desenvolvimento do trator autônomo", afirma Soares. "Nossos clientes já contam com sistemas telemáticos como o QRCode, que facilita o acesso ao manual do operador, de serviço e catálogo de peças dos tratores por qualquer smartphone."

A conectividade é uma tendência consolidada e inescapável para os setores automotivo e de máquinas agrícolas. A PSA, dona das marcas Peugeot e Citroën, investe 6% do faturamento global (5% no Brasil) em pesquisa e desenvolvimento. Desde julho de 2015, já rodou mais de 120 mil quilômetros com 15 veículos autônomos em testes, seja sem motoristas ou com pessoas ditas "não especialistas" ao volante.

"Para que o carro autônomo se torne uma realidade, é preciso que tenhamos parcerias com operadoras de telecom, fornecedores de infraestrutura, de chips e provedores de internet", destaca Jean Mouro, vice-presidente de operações Monozukuri (a empresa adotou o modelo introduzido pela concorrente Toyota. Monozukuri significa "fazer coisas, e fazer benfeito"), departamento que engloba as células de produção dos veículos: caixa de câmbio, motor, chassis etc.

As novas tecnologias estão presentes também nos serviços oferecidos pela empresa, que tem em caixa 100 milhões de euros para a compra de startups. Uma delas, a Free-to-Move deve chegar ao Brasil este ano, e oferece serviço de compartilhamento de veículos. "Você tem um carro, vai viajar e não quer deixar o carro no aeroporto uma semana. A empresa pega o carro, aluga por esses dias e lhe devolve o carro na volta. Você recebe pelo aluguel e não paga o estacionamento. Nos EUA, não vendemos carros, mas já vendemos esses serviços", revela o executivo.

Além da conectividade, a empresa norteia seus esforços por inovações pelos eixos temáticos redução de emissões e atratividade. No Brasil, toca um projeto de duração de dez anos, em que investe R$ 800 mil por ano, junto com a Fapesp, que investe o equivalente e em parceria com laboratórios da Unicamp, USP, Mauá e ITA, para estudar o funcionamento dos motores com biocombustíveis e etanol. "Desde 2015, temos uma média de 15 pedidos de patentes por ano no Brasil, principalmente na área de motores. Na França, lideramos este ranking há nove anos", conta Mouro.

A Man, multinacional que vende caminhões e ônibus com as marcas Man e Volkswagen, completa 20 anos de sua inovadora fábrica de Resende, onde fornecedores fabricam os veículos, no chamado Consórcio Modular. "Nascemos com esta inovação", afirma Roberto Cortes, CEO para América Latina. "Nosso negócio não é fabricar veículos. É entender o mercado, vender caminhões e ônibus e dar assistência técnica."

Foi com essa visão, e um investimento entre 4% e 5% da receita em pesquisa e desenvolvimento, que a Man conseguiu, nos últimos 15 anos, triplicar sua participação no mercado. "Somos uma empresa de alma alemã e coração brasileiro, com mais de 600 engenheiros em nosso centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Então, o primeiro passo foi desenvolver uma família de veículos sob medida para o Brasil: inclinação do para-brisa para diminuir a incidência de raios solares, escada que dificulta o acesso de um ladrão à cabine e motor para o combustível brasileiro", conta Cortes.

O executivo afirma que o mercado brasileiro ainda não exige veículos conectados e todo o pacote tecnológico já disponível. "Todos os nossos caminhões podem sair da fábrica conectados, mas o mercado ainda enxerga aí um custo. A tendência é a conectividade crescer", observa o CEO da Man.

Diferentemente das demais empresas classificadas neste ranking, a Mahle, fabricante global de autopeças e componentes veiculares, trabalha no ambiente B2B. "Para nós, inovação é execução", define o diretor de PD Ricardo Abreu. "Até que uma ideia boa chegue ao mercado, existem 10 mil maneiras de ela dar errado. Transformar um novo conceito em um produto requer muita disciplina e trabalho."

Em Jundiaí, quase 200 profissionais trabalham no centro tecnológico, ligado a uma rede global que agrega quase 6 mil engenheiros em 15 centros similares. Eles buscam continuamente melhoria de eficiência, segurança e economia nos sistemas e componentes comercializados pela empresa. Segundo Abreu, a empresa detém 140 patentes ativas no Brasil, com uma média nos anos recentes de 20 pedidos por ano.

Duas das patentes mais recentes estão embutidas em um sistema de separação de água do óleo diesel que acaba de chegar ao mercado de peças de reposição e está em negociação com montadoras. "O diesel pode absorver umidade no transporte e na armazenagem, o que pode criar bactérias nocivas ao motor e às emissões gasosas. Este problema cresce com o uso do biodiesel. Isso motivou a criação deste sistema inovador", descreve o executivo.

A Mahle também incentiva funcionários a trazerem ideias inovadoras à empresa, e isso ocorre de uma maneira sistematizada em âmbito global. Uma intranet permite que qualquer funcionário apresente uma ideia, que passa por todo um processo de avaliação e inserção nos projetos correntes. Se bem avaliada, passa por uma prova de conceito e, se aprovada, entra em desenvolvimento. "Nos últimos anos, 160 ideias passaram por este funil e 36 foram oficialmente implementadas pela empresa", conta Abreu.

Fonte: http://www.revistavalor.com.br/home.aspx?pub=81&edicao=1