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Publicado em: Revista Valor Inovação Brasil (Suplementos & Revistas) em 4 de Julho de 2017

Escassez põe startups na frente

Por Guilherme Meirelles

O contingenciamento de recursos provocado pela crise secou as principais fontes de crédito, que agora direcionam o foco para empresas nascentes e PMEs

O aprofundamento da recessão econômica em 2016 provocou impactos diretos na demanda das corporações por novos investimentos em inovação. Além da queda na atividade econômica, que inibiu o apetite das empresas na aposta de tecnologias inovadoras, houve o contingenciamento de verbas imposto pelo governo federal em março, que afetou em cheio o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), que agora conta com um orçamento 44% inferior ao anunciado no início do ano - passou de R$ 5,81 bilhões para R$ 3,27 bilhões. Assim, os órgãos de fomento à inovação mais atingidos acabam sendo aqueles que dependem diretamente dos repasses, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Principal financiador na área de inovação, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) registrou forte queda nos desembolsos de 2016, que ficaram em R$ 3,62 bilhões, 40% inferior à marca recorde de R$ 6,02 bilhões, em 2015. Em termos percentuais ao gasto total do banco, os recursos em inovação representaram 4,1%, ante 4,4% no ano anterior. No primeiro quadrimestre de 2017 foi observada uma recuperação. Os desembolsos foram de aproximadamente R$ 700 milhões, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2015.

O apoio do BNDES inclui linha de financiamento e participação em 14 fundos focados em empresas com tecnologia inovadora, com investimentos em 174 companhias. Para promover startups de capital semente, fornecendo também apoio na governança, o BNDES promoveu desde 2007 três séries do fundo Criatec. Com patrimônio de R$ 100 milhões, o Criatec I tem 36 empresas no portfólio. O Criatec II, de 2013, já investiu R$ 70 milhões dos R$ 186 milhões previstos em 27 startups. Já o Criatec III, de 2016, voltado para as PMEs, conta com capital de R$ 220 milhões, mas investiu apenas em cinco empresas, com perspectivas de envolver mais 30, com recursos que podem chegar a R$ 10 milhões por empresa.

A baixa intenção da indústria em investir em inovação já havia sido detectada na Pesquisa Fiesp de Intenção de Investimento em Inovação 2016, divulgada no ano passado. De acordo com o estudo, a expectativa de redução era de 8,6% no investimento da indústria brasileira em inovação, ante R$ 11,5 bilhões aplicados em 2015. Por outro lado, investimentos em pesquisa e desenvolvimento (4,9%) e gestão (5,6%) cresceriam em relação a 2015. Com maior flexibilidade das ações em inovação comparadas com outras áreas, a indústria trabalha com maior margem na hora de definir um eventual corte de custos. Outro vetor de fomento à ciência e inovação, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), do qual a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) é secretária-executiva, também sofre com o contingenciamento. "Existem atualmente duas Fineps", resume Marcos Cintra, presidente da agência.

De um lado, a "Finep banco", com R$ 6 bilhões em caixa e demanda retraída pela crise. De outro, a Finep que fomenta universidades e laboratórios e que convive com o forte contingenciamento do FNDCT. São R$ 700 milhões em caixa, muito abaixo do orçamento de R$ 4 bilhões do passado. "Hoje, o fundo não alimenta a ciência e a tecnologia, mas o superávit primário do governo", lamenta Cintra.

Em julho, a empresa deve lançar o programa Finep Startups, que na prática fará da Finep uma micro venture capital, só que estatal. Com a participação de investidores anjo, a Finep vai investir R$ 50 milhões em startups que tenham como atividade-fim produtos capazes de impactar a sociedade ou o meio ambiente.

O programa terá limite de R$ 2 milhões por empresa, mas há a possibilidade de que os recursos sejam diluídos entre 30 e 40 startups. Para as empresas mais consolidadas, a Finep oferece o programa Finep Inovação, no qual o tíquete mínimo é de R$ 10 milhões, com juros fixados pela TJLP e prazos de carência até quatro anos.

Com pouco tempo de vida (foi criada no final de 2013), a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) vem se apresentando como uma opção atrativa para as grandes empresas. Por ser uma organização social sem fins lucrativos, vinculada ao MCTI, a Embrapii aplica um sistema tripartite de custos e riscos compartilhado, inspirado no modelo do instituto alemão Fraunhofe.

O contrato envolve a Embrapii, que atua como gestora e repassadora dos recursos públicos, a empresa parceira e um centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação. "Financiamos os projetos das empresas em centros de pesquisa que tenham comprovadamente pessoas qualificadas", afirma Jorge Guimarães, presidente da Embrapii. Desde o final de 2015 até maio, foram contratados 222 projetos de 140 empresas, no valor de R$ 332 milhões.

Devido à natureza dos projetos, as empresas envolvidas são de grande porte, como Votorantim, Embraer, Fiat, Volvo e Samsung. A divisão dos recursos não é igualitária. Em média, a Embrapii entra com 33%, os centros de pesquisa com 21% não financeiros (infraestrutura, salários dos pesquisadores e know-how) e a empresa, com 46%. "É um modelo excelente, já que a empresa pode captar o valor por meio de empréstimo no BNDES ou ao Finep", diz Guimarães. Entre os 34 centros de pesquisa parceiros, estão universidades (como USP, Unicamp e PUC-RJ) e institutos tecnológicos, como IPT, Inatel e INT.

O próximo passo é envolver startups e pequenas empresas comprometidas com inovação. Por meio de parceria com o Sebrae, será possível integrar uma startup a um projeto que já esteja em andamento, desde que haja anuência da empresa parceira. Até o final do ano, a Embrapii espera chegar a 42 unidades de pesquisa credenciadas e alcançar 300 projetos, buscando superar a barreira de R$ 400 milhões.

Com o fim do projeto Ciência sem Fronteiras, que era mantido pelo Ministério da Educação (MEC) para estudantes de graduação que quisessem estudar no exterior, as opções para quem queira se aprofundar no meio acadêmico se concentram nas bolsas oferecidas pelo CNPq, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelas fundações estaduais de fomento à pesquisa e inovação. Até maio, a Capes ofereceu 5 mil bolsas de pós-graduação, pós-doutorado e estágio sênior no exterior.

"Devido ao contingenciamento, não lançamos novas ações, mas não cortamos os programas previstos", afirma Mario Neto Borges, presidente do CNPq. Entre as iniciativas do CNPq, está uma parceria com a Capes e a Embrapii, denominada Bolsa de Jovens Talentos para Inovação. A seleção visa atrair e reter talentos para projetos da Embrapii. Serão 50 bolsas pelo CNPq e 50 pela Capes, com valores atrativos- R$ 4 mil/ mês para juniores e R$ 7 mil para seniores, com duração de 12 meses.

Por ter como fontes de recursos a dotação de 1% de toda a arrecadação tributária do Estado de São Paulo, a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) tem conseguido cumprir os seus programas. No ano passado, as transferências de receitas do Tesouro estadual foram de R$ 1,057 bilhão e este ano já superaram R$ 400 milhões.

Criado em 1997, o programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) oferece financiamento não reembolsável para empresas com menos de 250 empregados que desenvolvam projetos com tecnologia inovadora. Em 2016, foram contratados R$ 80 milhões, o dobro de 2015. "Nos tempos de crise, aguça o interesse das pequenas empresas pelo desenvolvimento de novos projetos", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

Entre as frentes de atuação da Fapesp está a participação no financiamento de centros de pesquisa em universidades, em parceria com grandes corporações. Nos últimos dois anos, foram fechados cinco contratos, sendo o mais relevante o firmado com a Shell e a Escola Politécnica (USP) na formação de um centro para estudos de gás natural, com investimentos de R$ 100 milhões em dez anos. A Fapesp mantém ainda cerca de 9 mil bolsistas, desde iniciação científica até pós-doutorado.

Além das instituições mais tradicionais, os empreendedores digitais podem contar com aporte financeiro privado. Em 2015, o Google lançou o programa Launchpad Accelerator, que oferece bolsas de US$ 50 mil/semestre para uma imersão nos centros do Google, no Vale do Silício. Nas três primeiras edições, foram selecionadas 78 startups, das quais 20 brasileiras. "Não exigimos contrapartidas, estimulamos as startups a prosperar", diz Jose Papo, responsável pelo programa na América Latina.

Fonte: http://www.revistavalor.com.br/home.aspx?pub=81&edicao=1