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Publicado em: Revista Valor Inovação Brasil (Suplementos & Revistas) em 4 de Julho de 2017

O risco de ficar para trás

Por Felipe Datt

Enquanto a crise atrasa o país, as empresas mais inovadoras ampliam as parcerias para encontrar novas formas de captar ideias e pulverizar investimentos

Não têm sido poucos os percalços enfrentados pelas empresas na longa jornada em busca de inovações capazes de transformar ideias em valor agregado. No Brasil, as incertezas naturais quanto ao sucesso de um produto, a melhoria de um processo produtivo ou a viabilidade de uma nova tecnologia tornaram-se particularmente acentuadas em 2016, com a escalada da crise econômica e política que culminou na queda acumulada de 7,2% no Produto interno Bruto (PIB) no biênio.

Se houve uma lição com a crise, ao menos, é a de que a inovação é um ato contínuo e não uma ação isolada que pode ser interrompida e retomada em um segundo momento. Assim, se por necessidade de adaptação a uma demanda declinante ou por problemas de caixa, a maioria dos investimentos em expansão ou maquinários das empresas ficou engavetada, o mesmo não pode ser dito dos dispêndios em inovação. "No geral, houve aumento no percentual investido em pesquisa e desenvolvimento (PD) como parte da receita líquida, apesar da crise", diz Eduardo Fusaro, diretor da Strategy PwC, consultoria estratégica da PwC e responsável pela elaboração do ranking do anuário Valor Inovação Brasil 2017.

Na pesquisa deste ano, o percentual de empresas que investem mais que 5% da receita líquida em PD aumentou de 20% para 24%. Já entre aquelas que investem entre 3% e 5% houve estabilidade nos aportes -a comparação foi feita com base nas 108 empresas que participaram do ranking nos dois últimos anos. "A decisão de elevar ou manter investimentos pode ter sido tomada antes, com a perspectiva de saída da crise."

A amostra, que reúne 195 empresas de 18 segmentos, 87% com faturamento superior a R$ 1 bilhão, revela que a inovação abre caminho e crava lugar entre as três prioridades na agenda de 85% das companhias. Para 20% dos participantes, a inovação é a principal estratégia, o que comprova que o tema ganha cada vez mais relevância junto à liderança desse time de elite da inovação no país, por mais desafiador que seja o cenário.

"É na crise que a inovação se prova mais valiosa. Um dos focos é mostrar que a transformação digital está acontecendo agora, em todos os setores. Quem ficar de fora perderá tempo e competitividade", diz Rafael Aymone, líder do Centro de Pesquisas Global da GE na América Latina.

Os resultados, de alguma maneira, se alinham à Pesquisa de Inovação (Pintec) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda que o recorte temporal seja diferente, o levantamento mostra que, entre 2011 e 2014, o número de empresas que investiram em inovação no país ficou estável: 36% fizeram algum tipo de inovação em produtos ou processos, quase o mesmo índice do triênio anterior (35,7%).

A dúvida é se uma economia que entrou em recessão depois disso afetará o crescimento de práticas inovadoras das empresas brasileiras. "Cenários econômicos mais austeros, com restrições de caixa, limitam as ações das empresas também na alocação de recursos para inovação", explica Luiz Mello, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

Para o professor titular de física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Sérgio Rezende, não será surpresa se a próxima Pintec, que abrangerá o triênio iniciado em 2014 e encerrado em 2017, detectar que a recessão prolongada levou as empresas a colocar o pé no freio nos investimentos em inovação. "Não existe uma cultura difundida de investimento em inovação nas organizações brasileiras. Se até o governo federal cortou os investimentos nessa área, imagine as empresas", diz.

De fato, previsões informais sugerem que os investimentos do Brasil em PD, que beiravam 1,2% do PIB, devem cair para 1,1% ou 1% em 2017, dada a retração do investimento público e os dispêndios mais comedidos de grande parte do setor privado. "Se você pensar nas consequências disso para uma economia de baixo desempenho como a brasileira, é um tempo que dificilmente conseguiremos recuperar. Isso aumenta a dificuldade para conseguirmos nos aproximar das melhores práticas internacionais de manufatura, ciência e tecnologia", diz Glauco Arbix, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Observatório da Inovação.

A maneira de inovar ganha novos contornos. A maioria das empresas do ranking (68%) possui estratégia de inovação aberta, 88% utilizam pesquisas de mercado para embasar seus processos de inovação e até mesmo os dos clientes, seja por meio de entrevistas (79% das empresas) e processos de vivência (78%), são utilizados como fontes importantes para captação de ideias e melhorias em processos e produtos. É também cada vez mais comum a parceria com agentes externos, como instituições tecnológicas e de pesquisa, universidades, ONGs e outras organizações. Dos participantes, 67% fomentam parcerias externas de forma regular e 19%, de forma esporádica.

Há ao menos duas explicações para essa última estratégia. A primeira é que, à medida que cresce a complexidade do que precisa ser inovado, as empresas buscam fora de casa as expertises e capacitações necessárias para catapultar suas estratégias de inovação. "Agentes externos com conhecimentos específicos podem ajudar nos problemas com os quais a empresa lida", diz Fusaro, da Strategy PwC. Outra vertente está relacionada à pulverização dos investimentos e à mitigação de riscos.

Isso porque qualquer investimento em inovação e pesquisa e desenvolvimento é, por natureza, cercado de incertezas quanto ao seu sucesso e viabilidade. A parceria com a academia ou institutos de pesquisa públicos ou privados, assim, possibilita o compartilhamento dos riscos e investimentos, com o bônus de acelerar o desenvolvimento de um projeto.

"O Aché é o único laboratório brasileiro que participa do consórcio internacional Structural Genomics Consortium, que reúne universidades, governos e indústria farmacêutica. Com isso, é possível reduzir um pouco as diferenças em relação a países onde a inovação é mais estimulada", diz o líder do Núcleo de Inovação do laboratório, Stephani Saverio.

Para Milton Castella, diretor-superintendente de tecnologia e inovação da WEG, o conceito de indústria 4.0 envolve uma série de tecnologias que dificilmente poderão ser "cobertas" na sua totalidade por uma única empresa. Dessa maneira, tornam-se necessárias as parcerias com startups e com grandes provedores de soluções tecnológicas, como a internet das coisas (IoT, na sigla em inglês). "Para inovar, temos que fazer uso das competências já existentes, do contrário haverá muitas tecnologias no mercado sem integração entre elas. Esta necessidade de integração e padronização certamente dará força à formação de parcerias estratégicas", diz.

A internet das coisas ainda é um assunto que engatinha no Brasil: conforme a pesquisa, 21% das empresas não apostam na tecnologia, entre outros motivos, por conta dos altos investimentos. Conforme Flávio Vidal, gestor-executivo de Assistência Técnica, Qualidade e Inovação da MRV Engenharia, entre as principais barreiras para a utilização da tecnologia estão a infraestrutura de conectividade de baixa qualidade, a falta de mão de obra capacitada, parceiros de tecnologia com baixa experiência e conhecimentos ainda pouco amadurecidos (ver reportagem na página 110).

Urna tendência que ganha força no Brasil é a do "corporate venture capital", modelo em que grandes empresas financiam startups para aproveitar um ambiente organizacional ágil, baseado em forte estrutura tecnológica, alavancar inovações e absorver soluções sinérgicas ao seu modelo de negócios. O fenômeno é global e, no país, liderado por segmentos como o bancário, de TI e bens de consumo, que apostam em empresas novatas como parceiras em suas jornadas de transformação digital. "Temos parcerias na Europa e no Vale do Silício. A combinação de startups com a estrutura de uma empresa tradicional como a nossa permite reduzir o ciclo de desenvolvimento necessário de um novo produto", diz Marcos Blumer, CEO da Voith Hydro América Latina.

Conforme a pesquisa Valor Inovação Brasil 2017, 59% dos recursos aplicados em PD são voltados para o aprimoramento de bens, serviços ou processos já existentes dentro do negócio. É o chamado investimento "brownfield", uma inovação de caráter incrementai e rotineira. "As inovações rotineiras são mais comuns quando há dificuldade econômica. Há menos riscos e o resultado é mais imediato", diz Fusaro, da Strategy PwC. Um percentual inferior de empresas (18%) concentra os esforços em inovações disruptivas, voltadas para novos modelos de negócios, mas não necessariamente novas tecnologias. Apenas 14% investem em inovação radical voltada para desenvolver novas tecnologias, utilizando investigação científica ou engenharia.

A atuação em várias frentes de negócio, afirma Giovanni Pozzoli, CEO da thyssenkrupp, levou a empresa a concentrar investimentos nos segmentos com mercado mais fav0rável para compensar a retração em outras áreas. "Hoje, 80% do nosso portfólio é de produtos de bens de capital, com destaque para equipamentos como elevadores, componentes auto motivos, esteiras e aerogeradores. Com isso, pudemos manter o investimento em PD no mesmo nível", diz.

Na média das empresas do levantamento, ainda que a queda nos investimentos tenha ficado concentrada em poucos players, é fato que dispêndios em inovação iguais ou superiores a 4% da receita líquida são restritos a um seleto rol de participantes: 40% das companhias do Top 20. No conjunto das 195 empresas analisadas, apenas 27% investem nessa mesma proporção. Entre as Top 150, 60% das empresas investem menos do que a média global, de 3,8% da receita líquida, recorte capturado na pesquisa "Strategy 2016 Global Innovation 1000 Survey".

Dados como esses caminham na contramão da meta brasileira de investir 2% do PIB em atividades de PD. "A indústria perdeu peso no Brasil nos últimos anos, e isso joga para baixo os indicadores nacionais de PD, públicos ou privados. Ainda assim, existe um movimento positivo de grande parte da liderança empresarial brasileira, que já entendeu que seu posicionamento de mercado depende do esforço em inovação", diz Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Economia em crise, juros altos que encarecem os financiamentos, ajuste fiscal que contingencia recursos (para subvenção econômica) e ameaça à retirada de benefícios (como incentivos fiscais) explicam em parte por que os investimentos em PD não decolam como o projetado. "Falta o entendimento de que ciência, tecnologia e inovação dependem de continuidade, de políticas de Estado e não de governo", diz Rezende, da UFPE. De fato, em 2013, o governo federal anunciou o Programa Inova Empresa, pacote que prometeu injetar, em dois anos, R$ 32,9 bilhões no sistema de inovação, com apelo em crédito subsidiado. O pacote não foi renovado.

Desde o final de 2015, os empresários convivem também com a ameaça de suspensão da Lei do Bem (11.196/05 ). "O básico para a inovação é que haja investimentos e regras estáveis. Hoje, a inovação no Brasil não casa com os esforços da equipe econômica em busca do ajuste fiscal", diz Glauco Arbix.

O recado é claro: instrumentos públicos de fomento (isenções fiscais, subvenções e linhas especiais de financiamento) são utilizados globalmente para estimular o investimento privado em inovação, e o Brasil não foge à regra. Mudanças de direcionamento, entretanto, podem comprometer os esforços de elevar os dispêndios do setor privado como proporção do PIB (ver reportagem Desafios, na sequência).

O levantamento da Strategy PwC para o Valor também mostra que os incentivos governamentais são amplamente utilizados pelas empresas. Em 14 dos 18 setores da pesquisa, ao menos metade das empresas recebe algum incentivo, sejam isenções fiscais da Lei do Bem ou da Lei de Informática (10.973/2004), sejam recursos a custos baixos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou da Finep. No mais, o estudo mostra que, quanto maior o acesso aos incentivos, maior a chance de a empresa fixar um lugar no Top 50. "Há um número expressivo de incentivos no Brasil, mas grande parte são setoriais ou atrelados a um Brasil de antigamente. A Lei de Informática, por exemplo, não aporta valor na cadeia e tem viés importador", diz Pacheco, da Fapesp.

Os segmentos que mais acessam incentivos governamentais são o automotivo (100% das empresas), telecomunicações (86%) e indústria de base e metalurgia (82%). A importância de contar com incentivos públicos é confirmada por Rafael A vila, diretor de inovação e internacionalização do Grupo Anima, um dos maiores grupos privados de educação superior do país. Conforme o executivo, a principal estratégia que garante a manutenção dos investimentos em um cenário de crise econômica é o compartilhamento dos recursos. "Neste sentido, temos investimentos próprios, financiamentos governamentais e também recursos do setor empresarial. Se dependermos apenas de uma única fonte, não conseguiríamos manter os investimentos em inovação nesse cenário adverso", diz.

Fonte: http://www.revistavalor.com.br/home.aspx?pub=81&edicao=1