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Publicado em: Gazeta Mercantil (Primeira Página) em 3 de Março de 2000

Combate mais firme às pragas da laranja

Por Ellen Cordeiro - de Cordeirópolis

Os estragos provocados por pragas e doenças nos pomares de laranja estão mobilizando produtores, indústrias e institutos de pesquisa de São Paulo, o maior parque de citros do mundo e um agronegócio estimado em US$ 10 bilhões. As perdas causadas pelo amarelinho e pelo cancro cítrico, os dois maiores problemas, superam R$ 240 milhões por ano. O avanço, no combate às doenças pode ser comprovado pelo número de centros de pesquisa de citros, que subiu de 6 para 21 em cinco anos. Os estudos envolvem desde novos inseticidas até variedades mais resistentes. Em três anos, a Fundação de Amparo à Pesquisa, de São Paulo (Fapesp) destinou US$ 20 milhões para analisar as bactérias causadoras de doenças, enquanto o Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) investe R$ 2 milhões por ano. AVANÇOS NO COMBATE ÀS DOENÇAS DA LARANJA Os estragos provocados por pragas e doenças nos pomares de laranja estão mobilizando produtores, indústrias e institutos de pesquisa em São Paulo. As perdas provocadas pelo amarelinho e cancro cítrico, só para citar os dois principais problemas do setor, somam mais de R$ 240 milhões por ano, apenas com a perda das árvores. Como conseqüência, os institutos de pesquisa que tentam resolver os problemas relacionados a doenças da citricultura subiram de 6 para 21 nos últimos cinco anos. ' As pesquisas vão desde o desenvolvimento de novos inseticidas a variedades mais resistentes. De 1997 para cá, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) destinou US$ 20 milhões para a pesquisa das bactérias causadoras do amarelinho e do cancro, enquanto o Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) investiu R$ 10 milhões nos últimos cinco anos para estudar essas doenças, entre outras atividades. A preocupação com as doenças torna-se questão de sobrevivência para o parque citrícola paulista, o maior do mundo, com 796,3 mil hectares plantados com laranja, e produção estimada em 369 milhões de caixas de 40,8 quilos, além de 400 mil empregos diretos e 1,2 milhão de indiretos. Hoje, é praticamente impossível entrar num pomar comercial em grandes regiões produtoras, como Bebedouro, Itápolis e Limeira, sem passar por uma área de desinfecção para pessoas e veículos - já que uma folha infectada por cancro mantém seu poder de contaminação por cerca de um ano. Também é comum encontrar cercas vivas em torno das propriedades, para impedir que o vento transporte a doença. O agronegócio citrícola no estado está estimado em US$ 10 bilhões, incluindo as instalações das indústrias de suco. Só em exportação de suco de laranja concentrado e congelado, a receita chega a US$ 1,2 bilhão ao ano e mais US$ 1 bilhão no mercado interno. "No entanto, os investimentos em pesquisa mal chegam a 0,2% do valor exportado pela indústria", diz Antonio Amaro, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA), órgão da Secretaria da Agricultura de São Paulo. Amaro, que esteve presente no seminário Perspectivas da Citricultura Brasileira, realizado no Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em Cordeirópolis, diz que, atualmente, São Paulo conta com um número pequeno de pesquisadores em tempo integral para a citricultura, que não corresponde a 10% dos 191 da Flórida, nos Estados Unidos, o segundo maior estado produtor de laranja. De acordo com informações do Fundecitrus, foram registrados 4.162 focos de amarelinho - a Clorose Variegada dos Citros (CVC) - dos quais 80% em propriedades não comerciais. Pode parecer pouco, mas 36% do total de pés de citros no estado de São Paulo apresenta contaminação pela CVC em algum estágio de desenvolvimento. O CVC, que reduz a produtividade da planta e o tamanho da fruta, foi o primeiro alvo do projeto de mapeamento dos genes da Fapesp, o Projeto Genoma, que resultou no seqüenciamento dos genes da Xylella fastidiosa, a bactéria que provoca o amarelinho, em fevereiro passado. A Fapesp vai registrar as patentes dos genes envolvidos no processo infeccioso, enquanto a segunda parte do processo de identificação dos genes, o genoma funcional da bactéria, começa a mobilizar pesquisadores em 21 centros de pesquisa, na busca de uma aplicação prática do conhecimento obtido neste ano. "Nossa capacidade de gerar informações é muito maior que a capacidade de utilizá-las", diz Marcos Machado, pesquisador do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), envolvido na pesquisa. "Estamos desenvolvendo vários estudos, tanto da parte química como de variedades resistentes à xylella." Os produtores aguardam que a tecnologia desenvolvida para estudar o CVC chegue aos pomares o mais rápido possível. Machado calcula que os resultados práticos cheguem entre dois ou três anos. Enquanto o estudo da genética xylella entra numa segunda fase, o projeto de mapeamento genético do cancro cítrico - para o qual só existe prevenção -, a Xanthomonas axonopodis pv.citri está com sua seqüência de genes quase pronto. CUSTO DE PRODUÇÃO É MAIOR Os avanços nas pesquisas de pragas e doenças chegam no momento em que o citricultor enfrenta um panorama difícil, provocado pelo aumento dos custos de produção, pela maior dependência em relação às indústrias de suco - que consome cerca de dois terços da safra - e pelas modificações de hábitos alimentares nos países ricos, com o aumento do consumo, de suco pronto para beber em relação ao concentrado e congelado, exportado pelo Brasil. De acordo com Fábio Di Giorgi, assessor da Coinbra-Frutesp, uma das grandes indústrias do setor, os citricultores têm de se adaptar à queda das importações norte-americanas de suco concentrado, observadas nos últimos anos. Esse foi um dos motivos que fez com que quatro das cinco indústrias do País, que controlam mais de 90% da oferta, se instalassem na Flórida na década passada. Segundo dados do Departamento de Citros da Flórida, o consumo de suco de laranja pronto para beber aumentou 3,8% nos Estados Unidos, no ano passado, crescimento acompanhado por elevação de receita de 12,8%, em relação a 1998. O suco congelado, porém, caiu 12,7% em volume e 4,9% em receita, no mesmo período. Segundo Paulo Furquim de Azevedo, professor da Universidade de São Carlos, o consumo de suco pronto para beber aumenta com a renda da população. "É mais uma questão de renda do que de preço." Isso explica demanda abaixo das expectativas no mercado brasileiro, em 1999, diz Amaro, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA). "A elevada taxa de desemprego e a queda do poder de compra nos grandes centros consumidores brasileiros impediram que o mercado interno absorvesse a parte da safra que a indústria deixou de consumir, ao contrário do que ocorreu em 1997." (E.C.)