site da FAPESP
FAPESP na Mídia

Publicado em: Folha de S. Paulo (Caderno especial - O Brasil que dá certo - Energia) em 28 de Abril de 2017

Expansão do sistema hidrelétrico passa por séria dificuldade

Por José Goldemberg

A otimização do fornecimento de energia elétrica deve se basear em princípios de sustentabilidade, e não somente de custo

O Brasil tem um sistema de produção e uso de energia que lhe é muito favorável: 45% renovável, graças a um amplo parque de usinas hidroelétricas, programas de combustíveis renováveis como o Proalcool e energia eólica abundante e em expansão.

Os restantes 55% da energia consumida vêm do petróleo e gás produzidos no país. O Brasil é quase autossuficiente, exceto pela importação de gás da Bolívia e de parte da hidroelétrica do Paraguai.

Além disso, a rede elétrica nacional é integrada, o que é notável num país de dimensões continentais. Onde estão, pois, os desafios?

O primeiro deles é que a expansão do sistema de usinas hidroelétricas passa por sérias dificuldades porque os novos projetos se encontram na Amazônia, apesar do enorme potencial hidroelétrico ainda não aproveitado.

A oposição de alguns setores ambientalistas à construção de usinas hidroelétricas com reservatórios tem custos e consequências gigantescas que precisam ser avaliados. Uma usina como Belo Monte, que inunda uma área pequena, gera muito menos energia do que poderia, o que prejudica milhões de pessoas que moram a milhares de quilômetros de distância. Em compensação, beneficia alguns milhares de pessoas que vivem em torno da represa. Estes custos e benefícios precisam ser comparados.

A dificuldade em expandir o sistema hidroelétrico leva à adoção do uso de combustíveis fósseis para a geração de energia, o que agrava a poluição e tem custo mais elevado. E ainda: reservatórios de água serão essenciais à medida que aumenta a geração das energias solar e eólica.

Grandes bancos de baterias são inviáveis na escala de geração necessária no país. O uso de energias intermitentes em combinação com hidroelétricas resolve este problema: quando a luz brilha ou quando venta, poupa-se a água das usinas hidroelétricas. Elas são as "baterias" naturais mais eficientes de que dispomos.

A expansão da geração eólica no Nordeste e no Norte é uma boa solução, mas deve ser acoplada ao uso de reservatórios de água. Se necessário, poder-se-ia construir usinas reversíveis.

O Operador Nacional do Sistema tem se guiado pela ideia de otimizar o fornecimento de energia elétrica com o menor custo, o que na prática levou ao esvaziamento precoce dos reservatórios de água em muitas ocasiões. Isto precisa mudar. A otimização deve se basear em princípios de sustentabilidade e não apenas custo.

Finalmente, a produção de petróleo e gás no pré-sal a grandes profundidades precisa se adaptar a um mundo em que o petróleo não custe mais US$ 100 ou US$ 150 o barril. Ele se estabilizou em torno de US$ 50 por barril -e tudo indica que este custo não vai aumentar porque o seu consumo está caindo nos EUA e Europa devido aos avanços tecnológicos nos automóveis.

ESPECIAL PARA A FOLHA

JOSÉ GOLDEMBERG é presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo