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Publicado em: O Estado de S. Paulo (Espaço aberto) em 17 de Abril de 2017

A ciência sob ataque nos Estados Unidos

Por José Goldemberg

A importância dos avanços científicos e tecnológicos nos Estados Unidos – para fins pacíficos e militares – tem sempre sido reconhecida por todos os governos desse país e pela sociedade americana em geral, há mais de cem anos. É graças ao apoio dado a eles que se desenvolveram as grandes universidades e laboratórios de pesquisa que atraíram os melhores cientistas do mundo e foram a base do enorme progresso industrial do país. A liderança científica da Europa, que foi evidente no século 19 e na primeira metade do século 20, passou para os EUA.

Parecia ser aceito por todos, até recentemente, que investimentos em pesquisa resultam em inovações e crescimento econômico. Isso vale tanto para as invenções de Edison, no começo do século 20, na geração de energia elétrica e iluminação quanto para a descoberta dos transistores nos meados do século passado para a área de informática e telecomunicações modernas. Os EUA, em 2016, aplicaram em pesquisa e desenvolvimento 2,7% do seu produto nacional bruto, ou seja, US$ 473 bilhões. China e União Europeia aplicaram somas semelhantes.

O novo governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, contudo, parece disposto a mudar essa situação. Como candidato, ele captou o sentimento de parte da população americana que não se sente beneficiada, na sua qualidade de vida, pelos progressos científicos e tecnológicos do século 20. Parte dela, na indústria de carvão, foi de fato atingida, porque muitas minas se tornaram obsoletas, perderam competitividade, e seu abandono se tornou inevitável.

Isso já acontecera antes na Inglaterra na década dos 80 do século 20, quando a primeira-ministra Margaret Thatcher enfrentou uma greve selvagem dos mineiros e efetivamente fechou as minas. Para políticos como Trump, que apelam para a demagogia, a solução foi criar falsas expectativas de que a indústria do carvão renascerá, o que lhe rendeu dividendos políticos de curto alcance, mesmo negando as evidências do aquecimento global.

A atitude negativa do novo presidente em relação à ciência não ficou apenas nisso, teve outras consequências. O orçamento proposto pelo novo governo ao Congresso americano reduz as verbas da Agência de Proteção Ambiental em 30% e elimina vários programas científicos da maior importância na saúde e em pesquisas de vanguarda, o que provavelmente não será aceito pelo próprio Congresso, onde Trump tem maioria. Os programas de apoio à pesquisa na área de ciências humanas correm o risco de ser inteiramente abandonados.

Entre os cortes propostos por Donald Trump está a completa eliminação de um programa da National Oceanic and Atmospheric Administration (Administração Nacional para os Oceanos e a Atmosfera), que inclui a preparação das populações de áreas costeiras dos EUA para os efeitos da mudança climática – que, aliás, em oposição aos cientistas, ele afirma não estar acontecendo.

Mesmo áreas de grande sensibilidade para a maioria dos americanos, como a de pesquisa para prevenção e cura de enfermidades, serão afetadas se o orçamento de Trump passar. Os recursos dos National Institutes of Health (Institutos Nacionais de Saúde) perderão 18% de sua verba atual, conforme a proposta do Executivo.

Os cientistas americanos, de modo geral indiferentes à política e com frequência até alienados, parecem ter acordado para os perigos dessa política e estão preparando uma grande marcha no Dia da Terra, 22 de abril, em Washington, a fim de pressionar o Congresso a não aceitar as propostas obscurantistas do governo.

Além disso, o setor industrial – no qual se investe cerca de 80% de tudo o que se investe em pesquisas nos Estados Unidos – entende bem a importância da pesquisa e não seguirá a política proposta por Trump, considerada uma ameaça à competitividade americana no mundo e um risco para a produtividade do setor.

No Brasil, em contraste, mesmo diante da pior crise econômica da História, tem sido feito um esforço enorme para preservar o apoio às atividades científicas e tecnológicas no Estado de São Paulo, que responde por cerca de 40% dessa atividade no País.

O Brasil gasta cerca de US$ 10 bilhões por ano em pesquisa e desenvolvimento, isto é, cerca de 2% do que gastam os Estados Unidos. Essa soma, que parece pequena, tem, contudo, enorme importância para o País, pelas seguintes razões:

• A primeira delas é que mesmo para importação de tecnologias é preciso ter pessoas com suficiente capacitação para escolherem a melhor opção que será adotada pelo País.

• A segunda razão é que países em desenvolvimento têm algumas características próprias que permitem implementar tecnologias que efetivamente não foram exploradas adequadamente pelos países centrais. Um dos melhores exemplos nesse sentido, no caso do Brasil, é o do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), iniciado em 1975, que incentivou a pesquisa sobre o uso de álcool produzido a partir de cana-de-açúcar como combustível para veículos automotores e o desenvolvimento de novas tecnologias para o setor automotivo, o que possibilitou a produção do biocombustível em larga escala no País.

• A terceira razão pela qual ciência e tecnologia são importantes para o Brasil é que há pessoas talentosas em todo os lugares do mundo e avanços nessas áreas ocorrem também em países que não são centrais.

É a compreensão dessa importância que levou o governo paulista a preservar os recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a principal fonte de apoio à pesquisa das universidades estaduais, nos níveis fixados na Constituição do Estado de São Paulo e lançar um programa de modernização dos institutos de pesquisa do Estado.

PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), FOI SECRETÁRIO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Fonte: http://clipping.cservice.com.br/cliente/visualizarmateria.aspx?materiaId=31499736&canalId=293284&clienteId=iP2KrOnEaZQ=&end