site da FAPESP
FAPESP na Mídia

Publicado em: Folha de S. Paulo (Ciência+Saúde) em 23 de Março de 2017

Moreira Salles lançam o 1º instituto privado de apoio à pesquisa do país

Por Gabriel Alves

João e Branca doaram R$ 350 milhões para fundo patrimonial; orçamento anual será de R$ 15 milhões. Instituto Serrapilheira vai financiar projetos de excelência nas áreas de ciências, engenharia e matemática

Serrapilheira é aquela camada superficial de florestas e bosques, formada por folhas, ramos e outras fontes de matéria orgânica que devolvem nutrientes ao solo.

É também o nome da primeira entidade privada dedicada ao fomento de pesquisa e à divulgação científica do país, lançada nesta quarta-feira (22) no Rio.

O nome foi escolhido por João Moreira Salles, que, junto com sua mulher, a linguista e professora da PUC-RJ Branca Vianna Moreira Salles, quer "fertilizar a terra da ciência brasileira". O segundo motivo para o batismo, diz o documentarista, é a sonoridade da palavra, agradável.

Herdeiro do Unibanco, que foi fundido ao Itaú, João é uma das pessoas mais ricas do país, com fortuna estimada em US$ 2,8 bilhões pela revista Forbes. A família também tem negócios na área de mineração.

Para a constituição da nova agência de fomento, R$ 350 milhões foram doados pelo casal Moreira Salles para um fundo patrimonial. Os rendimentos devem garantir o suficiente para um orçamento anual de cerca de R$ 15 milhões para financiar projetos das áreas de matemática, ciências físicas, ciências da vida e engenharia.

O gosto de João Moreira Salles pela ciência e, em especial, pela matemática já havia ficado claro nas reportagens que escreveu e editou na revista "piauí", que ele fundou.

Não por acaso o lançamento do Serrapilheira aconteceu no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), no bairro do Jardim Botânico, no Rio, que já recebeu vultosas doações de Moreira Salles. É onde atua o matemático Artur Avila, único brasileiro ganhador da medalha Fields (o "Nobel" da matemática).

De uma conversa que Moreira Salles teve com o matemático e ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências Jacob Palis, em 2014, nasceu então a ideia de tentar mudar o cenário da pesquisa científica no país. Dezenas de instituições no Brasil e no exterior foram visitadas desde então em busca de um modelo para o Instituto Serrapilheira.

A ambição é associar a marca aos melhores pesquisadores do país. Para chegar a esse nível de excelência, a palavra de ordem deve ser liberdade.

Não haverá muitas regras de como o pesquisador deverá gastar o dinheiro recebido–coisa rara na conjuntura da ciência brasileira, majoritariamente financiada por entidades ligadas aos governos estaduais e federal.

Pelas regras dessas agências, por exemplo, não é possível ir a um importante congresso de uma área sem ter um trabalho para apresentar, e mesmo organizar eventos acaba sendo bastante complicado, afirma Edgar Zanotto, professor da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e presidente do conselho científico do instituto.

Segundo ele, a ciência no Brasil é feita de uma maneira quase uniformemente "incremental", o que é válido. A proposta do Serrapilheira, porém, é outra.

O plano é apoiar ideias inovadoras, "extraordinárias", capazes de mudar uma área da ciência, atacando problemas centrais.

Grosso modo, a ideia não é dar bolsas de mestrado ou doutorado, mas sim conceder uma verba de pesquisa que o pesquisador poderá usar como quiser, incluindo a contratação de outros pesquisadores ou até mesmo de técnicos que lidem com a burocracia do laboratório.

Não existe um número estabelecido de propostas que serão contempladas a cada ciclo nem um valor fechado para cada projeto –isso dependerá da proposta. Segundo o cronograma do instituto, os primeiros projetos poderão ser enviados no segundo semestre deste ano.

Outra meta da entidade é apoiar a divulgação científica para melhorar a imagem e a percepção que as pessoas têm da ciência no Brasil. A área provavelmente contará com cerca de 20% do orçamento, mas ainda não foi divulgado que tipos de propostas serão buscadas.

Ficaram de fora do guarda- chuva do Instituto Serrapilheira as ciências humanas. A explicação, diz Moreira Salles, é que a área das ciências naturais carece de personagens no imaginário brasileiro e na dramaturgia do país.

"Na cabeça dos jovens, tornar-se um cientista não é algo tão empolgante ou descolado", diz. Ele cita um ano em que se formaram 30 alunos de cinema na PUC-RJ e apenas dois matemáticos na mesma instituição. "O Brasil será uma tragédia. Uma tragédia bem filmada, mas ainda assim uma tragédia."

Outro motivo para a escolha é que João e seus irmãos já comandam o Instituto Moreira Salles, que tem atuação mais intensa nas áreas de artes visuais, literatura e música. As sedes ficam no Rio e em Poços de Caldas (MG). Uma nova unidade deve ser inaugurada em julho, na av. Paulista, em São Paulo.

'Burocracia é o pior da pesquisa do país', diz diretor

Para o geneticista francês Hugo Aguilaniu, 41, diretor do Instituto Serrapilheira, o pior da pesquisa científica brasileira é a burocracia.

Ele conhece o sistema de perto. Além de sua mulher ser brasileira, tem boa relação de colaboração com grupos de pesquisa da USP e é fluente em português.

Aguilaniu assume a nova função com um salário de R$ 35 mil e a ideia de que pode dar um empurrãozinho na ciência do país nesse quesito.

Uma das ideias do instituto é bancar a contratação de gerentes para lidar com essas questões, disse à Folha. "O pesquisador não pode desperdiçar energia criativa assim."

CIÊNCIA BRASILEIRA

Sempre tive uma admiração muito grande pelos pesquisadores brasileiros porque as condições de trabalho são muito mais difíceis aqui do que na Europa.

Sempre tive uma admiração muito grande pelos pesquisadores brasileiros porque as condições de trabalho são muito mais difíceis que a média da Europa.

Encontrei cientistas espetaculares que, apesar dessa burocracia extremamente pesada, fazem um bom trabalho. Isso é uma pena porque tira energia criativa do cientista.

NOVO EMPREGO

Há um potencial de causar um impacto muito maior à frente de um instituto como esse aqu do que em algo na França ou nos EUA, que já estão em um steady state [estado estacionário] quando o assunto é financiamento científico privado.

DESAFIOS GEOGRÁFICOS

Tudo bem que São Paulo produz 30% da riqueza do país, mas não tem por que não ter boa ciência em outros lugares, como o Nordeste. Principalmente em ciências teóricas, para as quais não é necessário quase nada. O Impa tem um prédio lindo, mas uma casa com duas lousas e computadores já seria o suficiente.

BUROCRACIA

Fiz meu doutorado na Suécia e trabalhei nos EUA como pós-doutorado e tenho um laboratório na França. Você quer um produto, tem um grupo de pessoas para o qual você faz o pedido, e, no dia seguinte, o produto chega.

Aqui é uma complexidade que ninguém merece. Você tem que preencher papel, justificar, resolver questão de importação. Cada departamento deveria ter uma equipe cuidando só disso. O cientista tem que ensinar, tem que lidar com toda a burocracia e, além de tudo isso, tem que ser criativo e pesquisar.

LIBERDADE ACADÊMICA

Se a gente conseguir mostrar que dá para facilitar esse processo dando recursos livres, deixando o pesquisador gastar o dinheiro como ele quiser com uma prestação de contas simples, será ótimo.

É uma cultura diferente das outras agências de fomento. Vamos conseguir fazer isso porque seremos um número pequeno de pesquisadores. Será uma relação de confiança. Vamos apoiar quem tem recursos intelectuais para se virar e fazer ciência de ponta.

RESPONSABILIDADE

Se tiver de gastar todo o dinheiro fazendo uma conferência e se isso for um meio de se realizar uma ciência excelente, perfeito. O pesquisador é que sabe.

A gente vai abrir a possibilidade de ele pedir ajuda. No começo da carreira, muitas vezes você precisa de uma ajudinha, de conselhos. Ele pode ligar e pedir para se consultar com um cientista de referência na área dele.

INTUIÇÃO

As pessoas veem a ciência como uma área seca, reta, mas não é assim. No começo de uma ideia há uma intuição de que ali há algo interessante.

O pensamento científico, racional tem uma característica: quando você consegue chegar ao final, há algo lindo. Ele é bonito, bem articulado, traz uma clareza, uma luz.

Tem que ter essa estética, como dizem os matemáticos, o próprio Artur [Avila] fala sobre isso. Não é só mostrar algo, é mostrar algo de uma maneira elegante.

ESCOLHA

Sou francês e minha mulher é brasileira. Moramos na França por muito tempo. A ideia de vir para o Brasil estava na nossa cabeça.

Esse anúncio foi encaminhado a mim pelo meu sogro, que assina o boletim da Fapesp. Eu não conhecia a família [Moreira Salles]. Perguntei à minha mulher: “Você conhece a família Moreira Salles”? Ela disse que conhecia, que eram pessoas sérias. E mandei a inscrição.

Acho que é um desafio interessante. Quem gosta mesmo de ciência nunca recusaria um negócio desses.

Fonte: http://clipping.cservice.com.br/cliente/visualizarmateria.aspx?materiaId=31175183&canalId=293284&clienteId=iP2KrOnEaZQ=&end